Quando o assunto é o universo fashion masculino, os estilistas Mario Queiroz e Ricardo Almeida são as duas principais referências do país. Donos de grifes de sucesso, que levam seus próprios nomes, eles falam sobre carreira, tendências, e dão dicas para deixar seu guarda-roupa muito mais bacana.
Ricardo Almeida
Quando e como você começou a trabalhar com a moda masculina?
Iniciei nesse setor como representante já faz 34 anos. Com a experiência, vi que podia passar para o lado da criação, e, há 21 anos, abri a fábrica Ricardo Almeida, que produzia para diversas lojas. Em 1992, abri a minha própria loja, com criações para homens e mulheres. Mas a moda feminina durou apenas dois anos. Desde então, estou totalmente focado no vestuário masculino.
E por que decidiu investir nesse universo?
As roupas femininas, que criava na época, exigiam matérias-primas caríssimas, um tempo enorme de pesquisa e muita criatividade. E eram para poucas, pois sempre fiz peças para mulheres sensuais que tinham um corpo legal. Ou seja, um mercado muito restrito. Já na moda masculina, sempre preferi o traje social, que tem bastante demanda e não há muitas lojas com essa especialização.
Muita gente diz que a moda masculina é muito restrita e não há tanta liberdade para criar. O que você pensa disso?
Realmente, é uma moda que tem mais restrições, mas aí é que aparece a criatividade do estilista. O segredo está nos detalhes: buscar tecidos, cores e estampas diferenciados, cuidar para que as peças tenham um caimento impecável, muita qualidade, e sempre que possível, também melhorar as formas das roupas.
Qual é a relação do homem brasileiro com a moda?
De uma forma geral, o homem está muito mais informado e parou de ter vergonha de sair para uma tarde de compras.
Ele sabe que estar bem vestido no trabalho, por exemplo, faz parte do negócio, e é um elemento que pode se refletir positivamente em sua carreira.
Qual é a vantagem de ser uma marca voltada exclusivamente para os homens?
Acho que há vantagens e desvantagens. A grande vantagem é que não há tantas lojas voltadas somente para homens, portanto a concorrência é muito menor. Já a maior desvantagem é que, como bem se sabe, as mulheres consomem mais. Elas podem não estar precisando de nada, mas se gostarem de um vestido na vitrine, entram na loja e compram. Já os homens, só compram se realmente precisarem. Em uma pesquisa feita em uma importante loja de departamentos francesa, descobriu-se que 82% dos consumidores eram mulheres. O número de homens não chegava a 20%.
Há certa monotonia no visual mais formal masculino. É possível quebrar isso sem perder a elegância ou ficar muito fora dos padrões dos executivos das empresas?
Sim, com certeza. Na hora de se vestir, o homem pode sair da monotonia ficando atento aos detalhes. Uma gravata com uma estampa diferenciada, e uma camisa com uma cor especial são dois bons exemplos que conferem uma mudança significativa a um look convencional.
Quais peças, acessórios e tendências estão mais up-to-date?
Calças secas e sem pregas, o xadrez em calças, coletes e paletós, as mangas dos ternos mais curtas, deixando aparecer um pouco o punho da camisa, e finalmente algo ousado: misturar uma peça xadrez com uma listrada.
Quais são os looks ideais para um executivo sofisticado, moderno e antenado com as tendências nas seguintes situações. . .
Uma reunião importante da empresa
Terno escuro cinza-mescla, bem sóbrio e formal, com uma camisa branca, que ajuda a transmitir credibilidade, e sempre traz a idéia de uma pessoa objetiva e ‘clean’, com uma gravata listrada que chame a atenção, mas que não seja muito chamativa. A cor principal da gravata pode ser o violeta, uma cor moderna para pessoas de personalidade forte. Para os pés, sapato preto de amarrar, com meia preta, combinando com o sapato.
Para a sexta feira casual
Calça risca de giz (preta com riscado cinza) de alfaiataria, jaqueta de couro marrom bem escura, camisa branca, que é um curinga total, e mocassim preto, de preferência um modelo mais formal (que não deixe aparecer o peito do pé), com meia preta.
Para um almoço na casa do chefe no final de semana
Calça de alfaiataria cinza clara (pode ter um riscado branco), camisa azul clara de manga comprida (deixe a manga sem dobrar), e mocassim bege sem meia.
O que os homens continuam usando e é muito cafona?
Calças e camisas muito largas ou muito apertadas. A moda hoje pede formas mais secas,que deixam o corpo mais longelíneo. Também acho muito feio usar paletós com ombros largos demais e calças acima da cintura.
Quais as três peças indispensáveis em um guarda-roupa masculino?
Terno preto, que é clássico e vale para qualquer ocasião, camisa branca, que dispensa justificativa, e jeans com uma boa lavagem e sem rasgos. O legal é que todas essas peças combinam entre si. Para um dia menos formal, dá para usar o jeans com o paletó, por exemplo.
E neste inverno, quais as cores que os homens devem apostar?
Para mim, a grande cor da estação é o dark blue, um azul marinho quase preto. Também aposto no marrom escuro, mas é uma cor que os homens tendem a rejeitar um pouco. Eu acho chique.
Existe alguma tendência bacana da moda masculina que ainda não chegou ao Brasil, mas deve chegar em breve?
A mistura de xadrez com listras ainda não chegou, mas aposto que vai chegar e estou investindo muito nisso.
Como você definiria o homem Ricardo Almeida?
Em quem você pensa quando está criando?
Eu acredito que visto um homem elegante e que sabe estar com o visual certo para cada ocasião. Um exemplo de elegância que gosto de citar é o personagem de Richard Gere, em Uma Linda Mulher. Apesar de usar no filme algumas peças antiquadas para os dias de hoje, ele dá uma aula de estilo e sofisticação, tanto no quesito roupas como postura.
Mario Queiroz
Quando e como você começou a trabalhar com a moda masculina?
Desde o início da minha carreira, há mais de vinte anos, houve uma vertente masculina muito forte. Não foi exatamente uma opção, esse caminho foi surgindo naturalmente. Muitas vezes, nas grandes empresas em que trabalhei, por ser o homem da equipe, acabava assumindo a parte de roupa masculina, e assim fui me especializando e me apaixonando.
E a conseqüência disso tudo foi a criação da sua marca, não?
Isso mesmo. Há 12 anos achei que estava preparado e com fôlego para investir as minhas “fichas” nesse mercado e criei minha marca. Hoje, tenho uma loja nos Jardins, em São Paulo, e vendo também para mais de trinta multimarcas no Brasil.
Muita gente diz que a moda masculina é muito restrita. O que você pensa disso?
Por motivos culturais, o homem, quando o assunto é moda, é proibido de tudo. Portanto, um estilista de moda masculina tem muitas limitações com relação às formas, volumes e comprimentos. Temos, por exemplo, a calça e pronto, que pode ser mais larga ou mais seca. Já as mulheres têm à sua disposição uma infinidade de modelos de saias, calças, vestidos e por aí vai. Mas um bom profissional do segmento masculino consegue superar essas restrições com a criatividade. E além do mais sinto que há espaço para inovação.
E como inovar?
É preciso pesquisar, buscar novidades, principalmente de materiais, modelagem e estamparia.
Como está a moda masculina brasileira?
As marcas de grande distribuição ainda tratam a moda masculina com muita timidez e, infelizmente, falta fôlego para muitos estilistas que iniciam neste setor. Os profissionais percebem rapidamente que o glamour da moda masculina é menor com relação à feminina, e que para ter um reconhecimento do trabalho leva-se muito mais tempo.
Você sente falta de ter criações femininas em sua loja também?
Não sinto falta, pois acho que ter foco é essencial. E quanto mais segmentado, melhor será sua comunicação com o seu público.
A vantagem de uma marca exclusivamente masculina é que toda a criatividade e dedicação estão
voltadas nessa direção. E o resultado disso são coleções com produtos muito mais interessantes.
Na moda masculina, quais peças, acessórios e elementos estão mais up-to- date?
As peças mais ajustadas e as bolsas com materiais e formas que saem do lugar-comum.
Quais são os looks ideais para um executivo sofisticado, moderno, e antenado com as tendências nas seguintes situações. . .
Uma reunião importante da empresa
Um costume escuro, preto ou risca de giz, camisa branca clássica e uma gravata discreta com uma padronagem geométrica ou ‘tom sobre tom’.
Para a sexta feira casual
Casual significa descontração, mas é diferente da descontração do final de semana. Este é o principal cuidado. Aconselho um paletó com uma forma mais contemporânea, ou seja, menos estruturado, sem a gravata, com uma camisa de manga longa. O jeans só é permitido se for limpo e com uma lavagem discreta.
Para um almoço na casa do chefe no final de semana
Nesse caso, o mais indicado é uma produção casual, mas é importante não esquecer que é a casa do chefe, portanto ainda existe certa formalidade.Uma boa opção é a calça de sarja, com uma camiseta pólo e, nesse caso, vale usar tênis. Mas acho importante deixar claro que hoje em dia não existe mais o “certo e errado”, pois a moda é sinônimo de liberdade e imaginação. Portanto, esses foram apenas três exemplos das inúmeras possibilidades que um homem poderia ter criado.
Quais são os itens proibidos na moda masculina hoje?
Camisas amplas demais, camisetas justas demais, sapatos que deixam o peito de pé à mostra, e meias esportivas usadas com sapatos sociais.
Quais são as três peças indispensáveis no guarda- roupa masculino?
Black jeans para ‘sair’ um pouco do já tradicional blue jeans, um paletó mais descontraído, que acompanha muito bem uma calça jeans, e uma camisa branca acinturada, que desenha o corpo e deixa qualquer homem mais sofisticado.
E neste inverno, quais as cores que os homens devem apostar?
Diferentes tons de preto, combinados de uma forma mais original. Adoro unir o preto com azul noturno, por exemplo.
Existe alguma tendência bacana da moda masculina que ainda não chegou ao Brasil, mas deve chegar em breve?
Aos poucos, os coletes de alfaiataria, que já são febre na Europa, estão chegando por aqui. Eu já me adiantei, e eles são peças fundamentais na minha mais recente coleção. Já estão, inclusive, à venda na minha loja.
Como você definiria o homem Mario Queiroz?
É um homem que gosta de moda e busca novidades que possam ser usadas no dia a dia.
Os homens ainda têm preconceito com cores e tecidos?
Sim, muito. Até mesmo os próprios fabricantes de tecidos. Muitas vezes, escolho um produto e eles me dizem aquele tecido foi criado para as mulheres, e aí eu pergunto: ‘Desde quando tecido tem sexo?’. É preciso quebrar preconceitos, pois eles são sinônimos de ignorância.