Engana-se quem pensa que trens de miniatura é brincadeira de criança. Pode até ser interessante para os menores ver pequenas locomotivas elétricas tracionando vagões que cabem na palma da mão, em estradas que cortam cidades fictícias do tamanho de uma mesa de bilhar. Mas a verdade é que, para muita gente, ferreomodelismo tem muito pouco – ou quase nada – de brincadeira. Gente como Marcelo Lordeiro, 54 anos, que desde os sete “brinca” com trenzinhos.“É o hobby número 1 do mundo, na frente da fotografia e da filatelia”, garante, se baseando não só no número de praticantes, que ele diz desconhecer, apesar de alguns sites especializados darem conta de 160 milhões de colecionadores, mas também no tamanho do mercado em valores surpreendentes para quem ainda considera se tratar de coisa de criança.“Em 2005, o ferreomodelismo movimentou mais de US$ 1 bilhão somente nos Estados Unidos”, garante.
Engenheiro mecânico, Lordeiro trabalhou nas extintas Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e Santa Matilde – antigafabricantedevagõesdacidadedeTrêsRios(RJ) – antes de começar a labutar com ferreomodelismo. “Eu pedi demissão da Santa Matilde só para poder concorrer com um projeto próprio em uma licitação da CBTU, já que a empresa não se interessou. Eu ganhei e aproveitei para abrir minha empresa”, conta Lordeiro.
A empresa em questão é a MR Custom, instalada em um apartamento no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Em três cômodos e uma sala, Lordeiro passa todos os dias rodeado por todo tipo de locomotivas, vagões, partes de maquetes, pequenas peças e minúsculos detalhes que apenas os aficionados conhecem. “Eu faço minhas miniaturas com o máximo de realismo possível. Cada detalhe é muito importante”, afirma, mostrando a frente de uma locomotiva G12, cujo modelo real é fabricado pela GM. A peça é usada para se fazer um molde, para a produção maior, que não chega ser em série, já que ele faz poucos exemplares de uma mesma locomotiva. “Muitas vezes os clientes me pedem coisas exclusivas, com detalhes especiais, ou com características de uma determinada época”, diz, lembrando de que em alguns casos se pode escolher entre o estado de conservação damáquina,sequandorecém-saídadafábricaounos seus últimos dias de glória em alguma ferrovia do interior de São Paulo ou nas linhas dos Estados Unidos. Tudo depende de quem faz a encomenda.
Entre esses clientes, Lordeiro enumera desde pessoas simples até empresários bem sucedidos, ou até mesmo gente do naipe de Jorginho Guinle. O playboy brasileiro não só fazia diversas encomendas a Lordeiro como o tinha como amigo para intermináveis bate-papos sobre trem.“Ele se encontrava comigo aqui no escritório e ficávamos horas conversando sobre ferrovia e ferreomodelismo. Em algumas oportunidades ele mandava o motorista me buscar e me levar até um restaurante em Botafogo. Quando voltávamos, a conversa continuava, sem muita hora para acabar”, recorda. Em meados da década de 90, quando o cofre de Guinle já não ostentava a pujança dos tempos em que andava na companhia de estrelas do jazz e musas do cinema norte americano, o ex-playboy deixou com o amigo a missão de vender sua valiosa e extensa coleção, comprada por um colecionador de São Paulo.
Hoje Lordeiro coleciona clientes não só no Brasil, mas em diversos países pelo mundo. Nos Estados Unidos, ele foi além de conhecer compradores para as suas obras raras e se acostumou a colecionar títulos em todo e qualquer concurso que disputasse. “E eu era sempre o único estrangeiro no meio de tantas feras do ferreomodelismo norte-americano”, afirma. Não teve uma só competição que Lordeiro não ficasse entre os três primeiros colocados.
A sua boa fama viajou por todo o país e lhe rendeu a participação em um dos maiores projetos de ferreomodelismo que se tem notícia: a maquete do Museu de Ciência e Indústria de Chicago, que custou cerca de US$ 3 milhões.
Para começar uma coleção, Lordeiro diz que com bem menos é possível fazer uma boa maquete.“È possível iniciar comprando um kit básico, e ir montando aos poucos”, diz, fazendo menção à eterna missão em que consiste o fazer e refazer de uma maquete. Para muitos ferreomodelistas, a graça é nunca finalizar um projeto e transformá-lo constantemente.
“Com apenas R$ 600 é possível montar uma maquete inicial. O ferreomodelismo pode ser um hobby barato e tudo depende da disponibilidade do modelista e o espaço que dispõe”, diz Lucas Frateschi, gerente da empresa que leva o nome da família e o peso de mais de 40 anos de tradição no ramo. Ele trabalha junto do pai, Celso, e neto de Galileu, idealizador da fábrica, que inicialmente trabalhava apenas com brinquedos.“No início da década de 70, meu avô percebeu que havia um bom mercado na área de ferreomodelismo, e decidiu concorrer com a Atma”, conta Lucas, sobre a então única fabricante de trens em miniatura.
Localizada desde a sua fundação na cidade de Ribeirão Preto (SP), a Frateschi entrou no mercado com um produto mais fiel aos modelos de verdade, sempre utilizando plástico. Lucas não sabe precisar quantos modelos vende por ano e não dá informações sobre o faturamento da empresa, mas estima que cerca de 1.200 caixas básicas – com o suficiente para fazer uma maquete, como trilhos, locomotiva e vagões – são vendidas anualmente. “Temos mais de 200 itens em linha e fornecemos para mais de 150 lojas especializadas em todo o Brasil”, enumera, além de exportar para Argentina, Chile, África do Sul, Nova Zelândia e Austrália, só para citar alguns.
Entre os preferidos dos modelistas, Lucas diz que estão as locomotivas que representam a realidade das operadoras ferroviárias atuais. “As locomotivas tipo C30-7, U23C e a clássica V8 – também conhecida como “Escandalosa”, por causa do barulho que produzia – da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, sempre são bons chamarizes para os ferreomodelistas”, afirma.
No entanto, os modelistas brasileiros raramente se limitam a comprar suas pequenas locomotivas de fabricantes do mercado nacional. Nuremberg, na Alemanha, é reconhecida como a cidade onde se deu o maior desenvolvimento do ramo, a partir de 1850, na mundialmente famosa fábrica Marklin, umas das mais antigas no ramo de brinquedos. Empresas como a Carette, Fleishmann e Bing também começaram a fabricar seus modelos antes mesmo do fim do século XIX. O hobby saiu da Europa e cresceu em todo o mundo, fazendo nascer uma série de tamanhos e escalas diferentes, conforme o país em que a moda chegava.
No início, além de ser utilizada energia elétrica para movimentar os trens, toda a sorte de mecanismo era usada, desde uma simples corda até o próprio vapor. Chamado de live steam, esta modalidade resiste até hoje. Nela, os trens têm o tamanho de brinquedos de carroussel, com espaço suficiente para transportar pessoas em pequenos espaços. No Brasil, Arnaldo Bottan é um conhecido adepto, que conta com uma verdadeira mini-metalúrgica em casa, em São Paulo, para a fabricação de seus modelos de vapor vivo – como também é chamado.
A paixão pelos trens é normalmente a explicação dada pelos entendidos – quase sempre, eles próprios apaixonados pela ferrovia e pelo modelismo. E essa tradição é passada de pai para filho.
Para Lucas Frateschi, o ferreomodelismo é uma poderosa ferramente de interação entre as pessoas de gerações diferentes.“Hoje em dia um pai acaba não tendo tanto contato com o filho. Ele simplesmente compra um [vídeo game] Playstation para o garoto e pronto, fica nisso. Com os trens em miniatura poderia ser diferente”, diz Lucas, para quem o – quase – fim do transporte ferroviário de passageiros em longas distâncias ajudou a transformar o ferreomodelismo em “diversão” somente de adultos. Mesmo assim, segundo números do empresário, o mercado vem crescendo 8% ao ano.
Comece sua coleção
www.frateschi.com.br
www.mrcustom.com.br
www.marklin.com
www.fleischmann.co.uk