Quando se pensa na paisagem urbana de uma metrópole como São Paulo, o que vem logo a cabeça são os milhares de edifícios que compõe a selva de pedra da maior cidade da América Latina. São mais de 22 mil prédios só residenciais, com 5 milhões de pessoas morando em apartamentos. Nesse mar de concreto, dois se destacam pela sua altura, o Mirante do Vale e o Edifício Itália, ambos comerciais. O que antes representou avanço arquitetônico e ousadia da engenharia brasileira, hoje não chega nem perto dos grandes arranha-céus do mundo.
São Paulo parou no tempo, assim como outras cidades do nosso humilde nação. Os anos 60 deram fim ao que parecia ser o começo de uma era de edifícios monumentais. Enquanto outras cidades do mundo seguiam construindo torres cada vez mais altas, o Brasil permanecia e permanece engessado por uma legislação do uso do solo que impede o surgimento desse tipo de construção.
“Falta a São Paulo um grande arranha-céu que servisse como símbolo icônico para a cidade, como ocorre com o Empire State Building, em Nova York, e o Petronas Towers, em Kuala Lumpur (Malásia), onde esses edifícios servem de referência e como símbolo arquitetônico para a cidade, além de movimentar o mercado turístico”, ressalta Solano Meiva, diretor superintendente da construtora WTorre.
Para entendermos melhor onde o País estagnou, temos que voltar no tempo e ir para os anos 20, período que os arranha-céus ganharam notoriedade no mundo e o Brasil foi contemplado com o seu primeiro.
Enquanto Nova York subia cada vez mais suas edificações, com prédios que chegavam a 70 andares, as cidades brasileiras engatinhavam. O grande marco nesse período foi a construção do Edifício Martinelli, iniciado em 1924 e concluído em 1929. Projetado pelo arquiteto húngaro William Fillinger, da Academia de Belas Artes de Viena, o prédio que teria inicialmente 12 andares na então área mais nobre da capital paulista, entre as ruas São Bento, Líbero Badaró e avenida São João, foi estimulado pela população para um crescimento ainda mais robusto até chegar aos atuais 30 andares.
Por muitas décadas, ele foi considerado o maior do País, perdendo mais tarde posição para prédios como Edifício Itália e o Mirante do Vale, este último o mais alto do Brasil atualmente, com 170 metros de altura.
A década de 30 foi um importante período para a construção de arranha-céus realmente altos, principalmente nos Estados Unidos. Embora o sistema metálico permitisse maior rapidez na execução, dependia de uma provisão abundante de aço e de mão-de-obra especializada, limitando sua aplicação fora dos países industrializados.
Por conta disso, até meados do século 20, os arranha- céus permaneceram como um fenômeno tipicamente norte-americano. Esses prédios altos conferiram à Nova York, a vitrine dessas construções, uma marca de poder e símbolo de progresso industrial, além do status de modernidade. Isso acabou gerando na cidade mais rica dos EUA duas décadas de corrida entre empreendedores em busca da construção do edifício mais alto. Como fruto deste fenômeno, surgiram edifícios que hoje são considerados símbolos daquela cidade, como o Empire State Building (1931), o Chrysler Building (1930) e mais tarde o complexo de 19 edificios do Rockfeller Center (1930 a 1940).
Os anos 30 e 40 foram cruciais para a verticalização da cidade de São Paulo. Esse período, marcado pelo crescimento habitacional, expansão do município e consolidação da capital paulista como principal pólo econômico do país, foi importantíssimo para a modernização do modelo de construção cada vez mais baseada em prédios.
Os Planos Regionais atuais paulistanos trazem previsão de gabarito máximo para algumas áreas, porém em outras não há limite de altura. A questão acaba sendo regulada em função do coeficiente de aproveitamento. Exemplificando de forma grosseira, o atual coeficiente de aproveitamento máximo é igual a 4, dessa forma alguém que tem um terreno de 1.000m2 pode construir 4.000m2, ou seja, pode fazer 4 andares de 1000, ou 8 de 500, ou 16 de 250. Com um terreno muito grande, seria possível fazer um prédio bem alto. Se o novo Plano Diretor que está em votação na Câmara Municipal aumentar o coeficiente de aproveitamento máximo, permitirá a construção de edifícios bem maiores que os atuais.
Num ponto, arquitetos, construtoras e governa concordam: antes de qualquer coisa é preciso um transporte coletivo de qualidade para a viabilização da construção de grandes arranha-céus em São Paulo. “Quanto maior a área construída, mais pessoas estarão morando ou trabalhando nos locais, gerando necessidade de infra-estrutura, em especial transporte e sistema viário, que são dois problemas gravíssimos na cidade”, alerta Claudia Beré, promotora de habitação e urbanismo de São Paulo. “A alteração do coeficiente máximo de aproveitamento na revisão do Plano Diretor não pode ser feita sem estudos técnicos que garantam a capacidade das áreas de receber maior adensamento e sem que a população interessada tenha oportunidade de discutir se é essa a cidade que desejamos”, completa.
O Arquiteto e Urbanista Cândido Malta concorda com a promotora. Para ele, a questão do arranha-céu passa pela infra-estrutura da região. “Tudo depende da capacidade de circulação de determinado local, com transporte de massa farto como acontece nas grandes metrópoles americanas”, lembra. “O melhor local para a construção dos arranha-céus em São Paulo atualmente é ao longo das ferrovias e em locais com muito metrô”, sugere o arquiteto. O fácil acesso ao local é um fator de extrema importância quando se fala em construções que atraem um número alto de pessoas.
Mas quem pensa que o Brasil nunca teve seu projeto de grande arranha-céu está enganado. Em 1999, o famoso guru dos Beatles, o bilionário indiano Maharishi Mahesh Yogi quis bancar um projeto de um edifício que seria o maior do mundo quando estivesse finalizado, com 510 metros de altura. De inspiração esotérica, a obra teria o formato de uma torre hindu e ocuparia uma área de 1,38 milhão de m2, o equivalente a sete estádios do Maracanã, no bairro de Pari, em São Paulo.
O Maharishi São Paulo Tower era originalmente um projeto concebido para Orlando, na Flórida, sul dos Estados Unidos. O desenho da megatorre saiu das pranchetas do escritório de arquitetura Minori Yamasaki – o mesmo do World Trade Center, em Nova York. Mas o projeto brasileiro não chegou nem a sair do papel.
Na época o então prefeito Celso Pitta ainda tentou viabilizar a obra, mandando para a câmara de vereadores um
projeto de desapropriação, dentre outras necessidades importantes para uma obra dessa magnitude.
Para Solano, as limitações no que concernem obras como essas não são mercadológicas, arquitetônicas, nem de engenharia. “Hoje temos bons escritórios de arquitetura e técnicas de engenharia de primeiro mundo. Nossa limitação está na legislação, que não é favorável a esse tipo de construção.”
Já Fábio Vilas Boas, diretor técnico da construtora Tecnisa, acha que um dos empecilhos para a construção de grandes edificações passa pelo custo de instalação. “Esse tipo de obra necessita de bases maiores, estrutura metálica em maior quantidade ou concretos mais sofisticados. Além disso, existe a necessidade de elevadores mais velozes, fachadas resistentes ao vento e garagens absurdamente grandes”, aponta.
Nos últimos dez anos o número dos chamados grandes arranha-céus vem aumentando consideravelmente. Projetos como o do Burj Dubai, previsto para inaugurar ainda este ano, vêm se tornando comum principalmente em países do Oriente Médio e asiáticos. O edifício citado, que já é o maior do mundo, com 807 metros de altura, está localizado em Dubai, Emirado Árabes Unidos, e terá cerca de 165 andares.
Daqui a alguns anos, não muitos, esse colosso da construção estará superado por outros que já estão em andamento ou que já foram anunciados. O Kuwait, no Oriente Médio já possui um projeto para construir um prédio com mais de 1001 m e 250 andares que se chamará Mubarak Tower. A própria Dubai já vê nascer um edifício que terá entre 1050 m e 1600 m, o Nakheel Harbour & Tower, ex-Al Burj, com previsão de ser inaugurado somente em 2020. A corrida dos xeques não deve parar.
A construtora Hyder Consulting anunciou para o desertodaArábiaSauditaumatorre,aMileHighTower, com 1600 m de altura.
Diante de tantos números grandiosos, o Brasil tem no seu edifício de 170 metros a visão máxima proporcionada por uma construção brasileira. Ao menos a natureza nos agraciou com o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, onde é possível contemplar de uma altura razoável toda a beleza que é ver uma metrópole de cima.