Recentemente, o Banco Central do Brasil revisou a estimativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano de 3,2% para 1,2%, segundo números contidos no relatório de inflação do primeiro trimestre deste ano. O BC informou que a nova estimativa de crescimento para este ano considera “reduções generalizadas” nos setores agropecuário, industrial e de serviços.
Olhando especificamente para o setor de serviços, a estimativa de crescimento foi revista de 3,1% para 1,7% em 2009, pois os setores de comércio e transportes, com reduções respectivas de 4,6% e de 3,6% foram impactados mais intensamente pela redução da atividade econômica,gerando um efeito dominó.Mesmo assim, em ano de queda generalizada, o setor de serviços é um dos que menos sofrerá desaquecimento.
Há também quem conteste os números do governo. De acordo com a LCA Consultores o setor deve mesmo crescer 3,1% em 2009 e boa parte das empresas e entidades do setor confirmam a tendência de aceleração do crescimento. A Atento, maior empregadora privada do país e uma das mais importantes na área de contact center, contratou 21 mil trabalhadores em 2008 e mantém, para 2009, os planos de abrir mais duas centrais de atendimento em São Paulo. A empresa mantém 72 mil funcionários, todos contratados em regime de CLT e está presente em seis capitais: Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Goiânia.
O setor de telesserviços, por sinal, manteve no ano passado o ritmo normal de crescimento, de 10% ao ano. De acordo com dados da Associação Brasileira de Telesserviços (ABT), o faturamento das empresas de call center no país (somente por parte das empresas do setor que operam como terceirizadas) foi de R$ 5,5 bilhões. O ano de 2009 iniciou com, aproximadamente, 850 mil empregos diretos. A previsão da ABT é de que até o fim de 2009 o setor ultrapasse a marca de 900 mil empregos diretos.
Outro dado animador é que, no início do ano, as empresas de telesserviços tiveram inclusive que investir ainda mais nos negócios “para se adaptarem às novas regras do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC), criadas para todo o país”, analisa o presidente da Associação, Jarbas Nogueira.
Números
Com 30.960 empresas, as organizações do setor de serviços faturam R$ 59 bilhões por ano, empregam 2,5 milhões de profissionais e pagam um total de R$ 25,5 bilhões anuais em salários. O estudo da LCA Consultores, para o qual foram entrevistadas 117 empresas, revelou que a média de efetivação da mão de obra do setor cresceu 25,14% e hoje corresponde a 43,8% do total. Cerca de 10% dos trabalhadores estão no primeiro emprego e 11,5% são da terceira idade. A contratação de pessoas com deficiência representa atualmente 11,55% do total.
Em todo o mundo, o setor de serviços compreende um terço do comércio mundial, sendo a área de maior crescimento econômico. Devido ao alcance da definição do que é serviço, somada à probabilidade de lucro que as companhias registram com sua contratação, ele gera, aproximadamente, 11 milhões de empregos no Brasil, correspondendo a 16% do total dos trabalhadores do setor privado: um a cada três empregos gerados na última década se deu em empresas de terceirização de serviços.
Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), a exportação de serviços brasileiros na América Latina também merece destaque, pois cresceu 4% em apenas dez anos, chegando a 15,7% do total exportado. No mundo, o Brasil ocupa a 35a posição no ranking dos principais exportadores com 0,6% da participação. “Outro dado revela que a maioria das empresas no Brasil já utiliza algum tipo de serviço terceirizado, sendo algumas por iniciativa própria e outras por meio de consultorias para orientar a implementação”, afirma Paulo Pandjiarjian, consultor empresarial e membro da ADVB – Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil.
Entre os serviços mais contratados pelas empresas estão: Limpeza e Conservação, Vigilância e Segurança, Manutenção Predial, Paisagismo e Desenvolvimento de Software. “Os números do setor de serviços falam por si só. É um setor que está sempre pronto a colaborar para que o Brasil seja um país melhor, com ou sem turbulência internacional”, afirma Pandjiarjian.
Tendências
Uma das tendências identificadas por uma outra pesquisa, feita pela consultoria IT Data em 2008, é o aumento de prestadores de serviço de menor porte no mercado. Os serviços de outsourcing, que incluem gerenciamento de aplicações, hospedagem e terceirização de impressão, serviços de informática entre outros, devem ser os grandes responsáveis pelo crescimento, de acordo com a consultoria. “A maior parte das categorias de serviços de outsourcing cresce a uma média de 25% a 30%, bem acima da taxa do mercado como um todo”, aponta o analista Álvaro Leal, responsável pelo estudo.
O que é Outsourcing?
Outsourcing é a designação dada à delegação de serviços a uma empresa exterior especializada nesse tipo de serviços. Um exemplo simples disto é a limpeza de um edifício: em vez de se contratar 2 ou 3 empregadas, comprar material de limpeza e ter alguém dentro da empresa responsável pela gestão destes assuntos, contrata-se uma empresa especializada em limpeza. Desta maneira evita-se a delegação de funções a alguém dentro da empresa (que poderá se concentrar exclusivamente em seus afazeres) e há a segurança de que o trabalho é feito por alguém com as competências certas.
Mais opções
Outra atividade que cresce no setor de serviços é o franchising, a melhor solução para quem pretende abrir um negócio próprio mas não tem muita experiência. Em meio às turbulências, o mercado de franquias é um dos que mais cresce no Brasil. De acordo com dados divulgados pela Associação Brasileira de Franschising (ABF) o setor, que representa hoje cerca de 1,7% do PIB nacional, fechou 2008 com faturamento 17% maior que o ano anterior, em torno dos R$ 53 bilhões. Dentre todos os segmentos, o que mais cresce é o de alimentação, que encerrou 2008 com 14% a mais de franquias que 2007. O setor ainda é responsável pela criação de cerca de 30 mil novos postos de trabalho por ano e 594 mil empregos diretos.
A economia nacional acolheu de forma muito positiva esta forma de negócios e, em pouco mais de quarenta anos, o Brasil já possui mais de mil redes de franquias - sendo 90% das redes genuinamente brasileiras. Entre as lojas que mais expandem no ramo, as cafeterias têm os númerosmaisexpressivos,comcrescimentode33,91%. Estes números podem ser explicados,entre outros fatores, pelo aumento do consumo de café no Brasil, que ocupa hoje o segundo lugar no ranking de consumo mundial, além de ser o maior produtor e exportador do mundo.
Turismo também cresce
O turismo brasileiro cresceu 20% em janeiro e fevereiro de 2009 quando comparado ao primeiro bimestre de 2008. A constatação bem como um balanço da indústria do turismo no passado foram apresentados em recente entrevista coletiva à imprensa pelo ministro do Turismo, Luiz Barretto.
Os hotéis de São Paulo, que normalmente sofrem queda durante o período de férias, apresentaram uma alta de 5% no período. No Rio de Janeiro, a ocupação hoteleira chegou a 95% no Carnaval, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH). Nem mesmo a diminuição do fluxo dos turistas estrangeiros, tradicionais nesta época do ano, reduziu o número de foliões. Ao contrário, a cidade recebeu 2,55 milhões visitantes nesta temporada, 50 mil a mais que na anterior.
Segundo a Associação Brasileira de Agentes de Viagem (ABAV), as operadoras de turismo tiveram um incremento de 15% nas vendas de pacotes turísticos em relação a janeiro e fevereiro de 2008. O número de turistas que optaram por viajar de avião também aumentou: os vôos domésticos cresceram 10% no período na comparação com o ano passado. Alguns balanços preliminares, como o de locação de automóveis, avaliam um aumento ainda mais expressivo, chegando a 40%.
Esses dados reforçam a tendência de estruturação e fortalecimento do Turismo,que vem emplacando números positivos ano a ano,tanto doméstico quanto internacional.
Em 2007, o turismo gerou 2,6% do PIB brasileiro e uma receita anual de R$ 39 bilhões. Desse total, 85% correspondem à receita do turismo doméstico. Os outros 15%, vindos do turismo internacional, alçaram o setor ao quarto item da pauta de exportações do país – posição perdida em 2008 para a comercialização de carne de frango.
No entanto, o turismo continua como primeiro item do setor de serviços da balança comercial brasileira.Enquanto, em 2007, o PIB do Brasil cresceu 5,7%, chegando a R$ 2,6 trilhões, o turismo cresceu 10% no mesmo ano.
Entre os destaques para os próximos meses do ano, estão as campanhas que serão promovidas pelo Ministério do Turismo antes de cada feriado do calendário nacional. Os investimentos do Ministério em infraestrutura no ano passado foram de R$ 1,7 bilhão. Os recursos foram utilizados para recuperação de rodovias, construção de aeroportos regionais e centros de eventos, sinalização turística, urbanização de orlas e recuperação de patrimônio.
Para este ano, o investimento em infraestrutura será reforçado com uma linha de crédito de US$ 1 bilhão do Banco Mundial, com US$ 400 milhões de contrapartida pagos pelo Ministério do Turismo. Doze estados e uma capital, Goiânia, já tiveram seus projetos aprovados pela Comissão de Financiamentos Externos (Cofiex) do Ministério do Planejamento. No total, US$ 746 milhões em financiamento já foram aprovados.
Edifícios de escritórios
Telesserviços, outsourcing, franchising e turismo são setores de serviços tão visíveis quanto os edifícios de escritórios, emprendimentos cuja expansão segue neste ano. A procura por escritórios bem localizados e com facilidades de serviços continua, sobretudo nas principais capitais brasileiras. Novos empreendimentos em São Paulo oferecem espaços a partir de 46 metros quadrados e também os Escritórios de Vila, com mais conforto e comodidades como segurança 24 horas, serviços de concierge e manutenção, limpeza, informática, reparos técnicos, serviços de internet, entre outros. Os facilities, serviços de administração e gerenciamento de atividades de infra-estrutura, destinados a suportar os usuários destes escritórios, oferecem ainda opções pay per use, gerando economia de tempo e valorizando o empreendimento.
As comodidades não param por aí. Em Moema, um novo empreendimento com salas comerciais a partir de 50 metros quadrados oferece um serviço de cadastro atualizado com uma agenda do bairro e localidades próximas, destacando as opções do comércio e prestadores de serviços com delivery,tudo para otimizar o dia a dia das empresas que estão se instalando no novo edifício. “Com a implementação de serviços é mais fácil prever os custos e associar um compromisso de qualidade pré-estabelecido. Algumas pesquisas já mostram que a aplicação deste modelo pode representar uma economia de cerca de 15% sobre os custos envolvidos”, destaca Luiz Claudio F. Garcia, especialista em Gestão de Negócios e membro da Associação Brasileira de Facilities.
“Posso afirmar que, para quem trabalha com serviços, o ideal é reunir embaixo de um único ‘guarda-chuva` o que até então era feito de forma isolada. É um modelo de prestação de serviços que atende a uma crescente demanda de clientes que desejam, cada vez mais, se relacionar com um número menor de parceiros, mas atingindo um perímetro maior de atuação”, afirma o especialista.
Mas o mercado de facilities começou a ganhar força no Brasil apenas na década de 90, quando surgiram novos moldes de parceria entre tomadores e prestadores de serviço. Atualmente, são poucas as empresas com atuação expressiva no setor. A Mark Building , empresa 100% nacional, aposta na expansão do mercado e no seu próprio crescimento.“Em um recente levantamento, identificamos que menos de 10% do mercado é atendido e mais de 70% dos potenciais clientes ainda não foram apresentados a uma empresa de facility management”, diz Altair Beling, presidente da Mark Building. É um mercado em expansão.
Mais mudanças em curso
A chegada ao Brasil de grandes empresas estrangeiras e de alta tecnologia também mexeu substancialmente com o mercado de imóveis comerciais. Edifícios de escritórios luxuosos, com infraestrutura sofisticada apareceram nos últimosanos nos grandes centros financeiros e comerciais do país. Muitos prédios antigos passaram por completa reforma e modernização e novos produtos surgiram como os fundos imobiliários, para permitir ainda mais diversificação nos investimentos e fontes alternativas de recursos aos construtores. “Analistas apontam um forte e sustentado crescimento do mercado imobiliário em países emergentes como o Brasil”, afirma Inácio Rodrigo de Castro, CEO da Catena & Castro Real Estate, uma das maiores empresas de serviço imobiliário do Brasil. Segundo Castro, mercados maduros como Nova York, Londres, Paris e Tóquio mostram limitações de ganhos, o que favorece mercados onde a economia cresce de forma saudável. E o Brasil, em especial, é um desses mercados.
Futuro dos espaços corporativos
Em recente entrevista, a arquiteta Claudia Andrade, da Andrade e Azevedo Arquitetura Corporativa, sugeriu que os escritórios corporativos deverão ser dimensionados por ambientes associados a cada função, assim como em nossas casas.“Ao longo do dia um funcionário exerce diversas atividades e cada uma tem um requerimento. Um escritório que atende essas necessidades teria um mesão onde o profissional, ao chegar, checaria os emails, trocaria informações com os colegas. Depois, ele iria para uma sala fechada para fazer um relatório. Em seguida, atende o cliente na sala de reunião. Cada ambiente dimensionado e mobiliado de acordo com a atividade”, sugeriu.
A sugestão da arquiteta não está distante da realidade e também não é a única que salta aos olhos. Em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, o Domo, um empreendimento em fase inicial, está sendo construído em uma área de 140.000 metros quadrados, provocando uma grande mudança estrutural e viária. Além de torres residenciais com ampla infraestrutura, um complexo com lajes para empresas, escritórios, boulevard, consultórios, lojas de conveniência e serviços mudará a forma como as empresas, sobretudo as de serviços, conceituam o espaço de trabalho. A expectativa é que muitos consumidores optem por uma compra casada e façam do complexo seu lugar para trabalhar e viver. Com as dificuldades viárias das grandes cidades, super lotação do transporte público e a crescente busca por melhor qualidade de vida em casa e no trabalho, o Domo aponta para a tendência de morar e trabalhar em locais próximos, filão que já está sendo explorado por todo o país.
Já para empresas que buscam um padrão mais elevado, o Edifício The City, o mais novo produto da Cyrela Commercial Properties (CCP), do Grupo Cyrela Brazil Realty,é um exemplo do mix de características que pode estar por vir. O empreendimento foi projetado para atender as necessidades de corporações nacionais e multinacionais de médio e grande porte e já é sucesso. Baseado em pesquisas para definir tipo, tamanho e localização de um terreno ideal e depois a configuração certa para as necessidades do mercado, o edifício é o mais próximo do perfil de locatário que se pretende atrair. “Entendemos, por exemplo, que há grande demanda por grandes lajes”, comenta Dani Ajbeszyc, diretor financeiro e de relações com investidores. No interior do empreendimento, andares facilitam a ocupação conforme o gosto do futuro usuário, pois são preparados para receber piso elevado, forro suspenso modular e luminárias. Ainda está previsto restaurante diferenciado e auditório para 100 pessoas no último andar. Cinco subsolos de estacionamento e elevadores com sistema de antecipação de destino de chamada foram instalados.
Um item em particular, diagnosticado pela CCP como tendência através de pesquisa em empreendimentos anteriores, é a facilidade do locatário de dispor de vestiários na área comum do condomínio para atender seus colaboradores. “Dessa forma, ele não perde espaço na área privativa”, explica Hilton Rejman, gerente de Desenvolvimento da CCP.
Fachadas inteligentes para economia de energia, reaproveitamento e uso racional da água e outras preocupações ambientais também mostram força num futuro onde qualidade de vida e produtividade parecem se unir para oferecer uma gama de serviços cada vez melhor e variada, em todos os níveis. Um mundo de serviços a nosso dispor.