Cockpit é aquele espaço mínimo de onde os pilotos, principalmente da Fórmula 1, dirigem seus carros. É tão apertado que, para entrar ou sair, é preciso retirar o volante. Em algumas empresas, o espaço reservado para os funcionários, principalmente das áreas operacionais, também guardavam estas características: pequenos, apertados e, para que algo novo entre, só saindo algo que lá já estava.
A evolução das estações de trabalho, os cockpits corporativos, seguindo a analogia, está ligada direta ou indiretamente ao avanço tecnológico dos equipamentos de uso diário. Com microcomputadores, impressoras e monitores menores e de fácil adaptação estética, os problemas de ambientes profissionais pequenos, pesados e estáticos estão ficando para trás. Cada vez mais modulares e adaptáveis aos ambientes, as estações de trabalho deixaram de ser item padrão para ocupar destaque nos projetos de interiores corporativos.
“Dá pra dizer que a tecnologia evoluiu e, por conseqüência, o conceito de trabalho também. Nos anos 1990 as reengenharias começaram a redefinir a organização das empresas e mandaram um monte de gente pra trabalhar em casa, nos home offices; hoje, compartilhar um mesmo ambiente de forma integrada e funcional é a tendência e era natural que as estações de trabalho ganhassem mobilidade e destaque central na reorganização dos espaços”, afirma o arquiteto Osmar Versolato.
Mas o processo de evolução das estações de trabalho e dos mobiliários não foi uma linha reta. “Tempos atrás, muitos empresários apostavam num posto de trabalho de qualidade e numa cadeira simples. Atualmente, a configuração se inverteu: estações de trabalho simples e funcionais com cadeiras de qualidade, confortáveis e ergonômicas parecem ser as mais usadas”, destaca o designer Diego Ruiz.
Simplicidade não é (e não deve) ser sinônimo de baixa qualidade. A tendência geral busca adequar ambientes de trabalho com linhas simples, retas, despojadas, mas de boa procedência e qualidade. Para equilibrar a relação custo/qualidade, é perceptível nas estruturas empresariais uma menor diferença espacial e técnica entre os postos de trabalho em níveis de diretoria, gerência e operacional. Os ambientes estão cada vez mais uniformes, sempre respeitando a necessidade de cada área. As diferenças hierárquicas dentro das empresas estão sendo menos percebidas espacialmente ou pela qualidade do mobiliário, similar para todos. A democratização do ambiente tem sido mais importante do que a divisão de funções por tamanho da mesa ou preço da cadeira, mas ainda existem as diferenças em função de necessidades de maior ou menor privacidade, este sim, um bom motivo a ser considerado nos projetos.
Mais do que um lugar pra sentar
A cadeira é a peça do mobiliário corporativo que mais rápido evoluiu em termos de ergonomia. Além de giratórias com rodinhas, novos modelos e formas surgem a todo momento com mecanismos cada vez mais seguros de regulagem de altura e de apoio lombar. Se os preços e padrões ainda variam bastante, já é possível afirmar que aquela linda cadeira do presidente da empresa não fica assim tão distante dos modelos usados pelo operacional, pelo menos nos aspectos técnicos e ergonômicos.
A palavra ergonomia, aliás, acompanha o mobiliário, sobretudo as cadeiras, mas nem sempre de forma correta. Mobiliário ergonômico é aquele correto para o corpo numa análise anatômica, social e comportamental. Para projetar um móvel ou uma cadeira ergonômica o designer deve considerar as pessoas nas suas atividades diárias no trabalho, sua movimentação lateral e tempo de permanência no local de trabalho.
Assim, voltando ao exemplo da cadeira, seu desenho deve não apenas entender a movimentação da pessoa, mas incentivá-la. A ideia é entender o que é correto para o corpo e não definir uma determinada postura como sendo a correta universal. As pessoas não são iguais e a tendência de considerar medidas médias mais exclui do que inclui pessoas.
Evolução
Até meados dos anos 1990, estação de trabalho era sinônimo de beleza e modernidade, não importando muito a sua adaptação correta aos usuários. Pouco tempo depois os noticiários começaram a pipocar matérias sobre doenças relacionadas ao trabalho, algumas levando até ao afastamento, o que provocou uma nova atenção ao que as empresas estavam adquirindo para o dia a dia de seus funcionários. Tornou-se freqüente a citação da LER (Lesões por Esforços Repetitivos) pela imprensa em geral. Do ponto de vista das empresas, as ações trabalhistas significam custo financeiro adicional a um rol que já incluía o aumento no preço do metro quadrado dos imóveis corporativos. Em conseqüência, a preocupação com a saúde dos funcionários vinha se somar à necessidade de acomodar mais pessoas sem a ampliação de espaços. A saída foi projetar estações de trabalho mais eficientes e adaptáveis.
Deste período até o início dos anos 2000, as mesas se transformaram em peças polivalentes, capazes de acomodar o micro, o telefone, o aparelho de fax e até a impressora, incluindo também espaços para a passagem de toda a fiação destes equipamentos.Tudo isso, claro, deixando um espaço livre para que as pessoas pudessem trabalhar sem o micro.
De lá para cá, os escritórios e ambientes de trabalho open space vem ganhando terreno e contabilizam vantagens. Com a falta das paredes, os funcionários tiveram que falar mais baixo para não incomodar o colega ao lado. Essa mudança comportamental, uma das mais sutis, é tão importante quanto a ergonomia dos móveis, pois sem ela o open space já teria deixado de ser “open” há muito tempo. Outra vantagem é a possibilidade de uma comunicação visual entre as pessoas, o que facilita identificar o que cada um está fazendo, o que pode gerar um senso de colaboração entre todos.“Até mesmo as baias e divisórias são cada vez mais baixas e tecnológicas, facilitando o contato”, destaca o arquiteto Osmar Versolato.
Outra novidade já integrada em muitas empresas são os mobile offices ou mobile stations.Na prática,são estações de trabalho ou áreas reservadas pra várias estações de trabalho, destinadas para funcionários externos e visitantes de outras unidades da empresa que precisam utilizar o espaço por poucos dias, muitas vezes apenas por algumas horas. Estes espaços possuem pontos de acesso para internet, impressoras e pontos de energia, além, é claro, de boas cadeiras com regulagens.
Gavetas acopladas às mesas, gaveteiros, arquivos, armários, impressoras e até as CPUs estão deixando as estações de trabalho para ocuparem espaços específicos para cada um destes equipamentos, deixando a estação de trabalho livre para cada usuário. Assim, o acúmulo de papéis e objetos desnecessários e o tempo usado para suprir de folhas e substituir cartuchos e toners em impressoras tendem a desaparecer. Cada vez mais os usuários estão sendo instados a se concentrar em suas atividades, sem desvios não relacionados ao trabalho. Com a criação de espaços para café e refeições, a serem freqüentadas em horários específicos, a produtividade tende a aumentar na mesma proporção do bem estar dos funcionários.
Chefe fora da sala
Os chefes estão deixando de ser chamados de chefes. Estão deixando de mandar para comandar. E estão deixando de usar mesas de mogno e tapetes de 10 centímetros de altura em salas praticamente intransponíveis para se instalarem em ambientes de trabalho integrados aos demais departamentos, mesmo que ainda conservem uma sala exclusiva.
Um novo modelo de gestão empresarial onde a comunicação e a organização hierárquica acontecem de forma horizontal e não mais vertical tem modificado não só a postura dos líderes como também exigido uma maior participação no dia a dia corporativo. Há alguns anos, poucos imaginavam um diretor de uma grande empresa trabalhando em um computador, recebendo e respondendo e-mails, função ora executada pela secretária.
Se o presidente e diretores não devem simplesmente se igualar aos demais funcionários no arranjo mobiliário corporativo (por razões de segurança e privacidade, sobretudo), os avanços na configuração de seus locais de trabalho apontam para uma tendência de menor ostentação, valorizando aspectos práticos e também emocionais da corporação.
Um bom exemplo são empresas de tecnologia, que podem optar por móveis, acessórios, revestimentos e outros itens que remetam à inovação, principal valor para empresas deste segmento. Já um escritório de advocacia, elementos que inspirem credibilidade e solidez podem ser a melhor escolha. Nos dois casos, paredes substituídas por divisórias piso-teto, uma tendência crescente, podem ajudar nesta integração do comandante e seus comandados, sinal dos nossos tempos.
O fim dos post its?
Se para os mandatários o local de trabalho deve refletir os conceitos principais da empresa, para os demais a regra também se aplica. As estações de trabalho sempre foram reveladoras da personalidade de seu usuário, pois a maneira como ele organiza e o decora, aponta sinais a respeito do profissional. É comum entrar num escritório com várias estações e enxergar, de longe, alguns exageros.Ser autêntico é um ponto positivo,mas expor intimidades como fotos pessoais e informações confidenciais afixadas no monitor com post its pode ser arriscado e mostrar uma atitude pouco profissional.
Dicas de Renata Mello, consultora de etiqueta corporativa, podem ajudar a não errar quando o assunto é espaço de trabalho.
“Quem trabalha o dia todo numa empresa gosta de personalizar seu espaço. Isso colabora para o bem estar do funcionário. Porém esta personalização, com critério, pode deixar o local agradável, sem revelar informações desnecessárias a respeito da intimidade, vida pessoal ou preferências”, esclarece. Seguem alguns cuidados:
• Como sua mesa de trabalho não é exatamente sua, mas um lugar da empresa cedido parav ocê ocupar no dia a dia, evite acumular coisas demais sobre ela. Procure deixá-la sempre organizada, mesmo que os papéis demais sejam inevitáveis.
• O espaço de quem trabalha também não é uma loja de brinquedos. Se você gosta deles evite-os nesse ambiente. A imagem que passa é de infantilidade, apesar de muitos nem perceberem isso. Portanto, prefira os do tipo antiestresse - bolinhas para virar nas mãos e almofadas de apertar.
• Também é necessário cuidado com o tamanho de plantas. Sua baia de trabalho não pode se transformar num jardim. Plantas são bem vindas, mas nada de exageros. Melhor que não tenha perfume, pois algumas pessoas são alérgicas. Portanto, dê preferência para as pequenas. Atenção: se for sair de férias não a deixe morrendo na mesa, pois passa a sensação de irresponsabilidade e falta de sensibilidade.
• Fotos pessoais de biquíni ou sunga numa praia linda, ou como novo namorado(a), podem expor a sua vida pessoal e dar direito aos seus colegas de participarem dela, fazendo comentários deselegantes e indiscretos. Melhor deixar as fotos dentro de uma gaveta: quando der saudades você dá uma olhada.
• Mulheres, cuidado com maquiagens, necessèries, produtos de higiene, esmaltes, lixas de unha, bijuterias, expostas na mesa. Reserve uma gaveta ou armário para objetos pessoais para colocar suas coisas. Não confunda seu quarto com sua estação de trabalho.
• Homens, cuidado com flâmulas e bandeiras de times de futebol, revistas masculinas, xícaras sujas e copos usados, CDs e remédios sobre a mesa. Mesma regra das mulheres: reserve uma gaveta ou armário para colocar esses objetos pessoais.