No passado, na visão da maioria dos advogados, ser uma pessoa respeitável, detentor de conhecimento e conduta
acima da média eram predicados para os bons advogados. A maneira de atender, como se portar e de que forma conduzir os processos era uma questão praticamente pessoal, sem levar em conta as reações e tendências de mercado, itens presentes no vocabulário de muitos outros profissionais e segmentos. Hoje, um profissional que busca ocupar espaço na advocacia está refletindo mais sobre o seu próprio negócio, de forma a garantir destaque perante os demais. E não pára por aí. “No futuro, vislumbro um misto do passado e do presente, um advogado
que divulga a informação como meio de disseminar seu conhecimento sobre áreas do Direito que atua, participa mais das redes sociais para estar conectado no mercado e cria sua marca e reputação conforme avança nas relações sociais”, afirma Gustavo Rocha, palestrante e advogado pós-graduado em Direito Empresarial.
Para Rocha, 2009 foi mais um ano em que as mudanças ficaram evidentes: “Assistimos a evolução do processo
virtual, digitalização, proliferação de sistemas de gestão, controles financeiros avançados para o escritório e para o cliente, enfim, viramos empresas”, afirma. O grande desafio é identificar o quanto todos estão preparados para as mudanças e suas implicações no dia a dia, da rotina processual aos layouts dos escritórios, hoje de suma importância para o exercício dos trabalhos.
Número s e tendências
Com mais de 620 mil advogados inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) – pouco mais de 50% deste total estão divididos entre São Paulo e Rio de Janeiro – , o Brasil é uma das nações com o maior número de profissionais atuantes no mundo, mas as necessidades dos clientes variam. “A advocacia empresarial brasileira demonstrou que está suficientemente madura e bem aparelhada para prestar assessoria jurídica a grandes conglomerados internacionais nas mais variadas operações”, afirma José Luis de Salles Freire, presidente do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (Cesa). O uso de recursos tecnológicos de ponta tem colaborado para transformar a realidade de muitos escritórios, que passam a ser capazes de atender clientes multinacionais em parceria com as mais sofisticadas redes de escritórios globais. “Tivemos escritórios de advocacia assessorando clientes em licitações de obras de infraestrutura e na obtenção de concessões para exploração de serviços públicos. Houve também grande procura de orientação jurídica pelos investidores estrangeiros e nacionais envolvidos em contratações da indústria naval, aeroportuária e petrolífera”, destaca Salles Freire, sinalizando uma retomada econômica que ser firma em 2010.
Outra tendência sem data para terminar é o ritmo das operações de fusão e aquisição e de ofertas iniciais para abertura de capital, que havia retraído no primeiro trimestre de 2009 e logo foi retomada, mantendo os escritórios ocupados desde o final do primeiro semestre do ano passado. Destacaram-se as transações envolvendo a consolidação da indústria farmacêutica, as operações de varejo e do mercado financeiro, além do envolvimento dos escritórios de advocacia nas operações de expansão da indústria da tecnologia da informação, nos avanços do agrobusiness e nas transações de aquisição de ativos florestais para o desenvolvimento de projetos de neutralização de carbono e conservação do meio ambiente.
Os departamentos jurídicos das empresas também tiveram um impulso iniciado em 2009. Acentuou-se a
tendência das grandes empresas, em especial do setor financeiro, de estruturarem seus departamentos
jurídicos internos com um maior número de advogados. “Esse movimento não chegou a afetar a estratégia
dos escritórios, uma vez que a procura por assessoria legal externa não diminuiu”, diz Salles Freire, com destaque para trabalhos envolvendo carteiras de processos judiciais com nível alto de especialização.
Também é tendência o aumento expressivo das demandas dirigidas aos tribunais arbitrais. Esse movimento
mostra a confiança e evolução dos advogados brasileiros ao optar pela alternativa da resolução privada de litígios. Isto se dá em razão do nível de complexidade dos contratos e o envolvimento de empresas estrangeiras, que exigem a resolução de controvérsias por árbitros especializados, em um ambiente de sigilo e confidencialidade. E é esta própria complexidade que faz com que o presidente do Cesa aponte mais uma tendência: “Cada vez mais fica patente a necessidade crescente dos advogados de se organizarem em sociedades, em qualquer nível de atuação. Isso porque a organização da profissão passa necessariamente pela sociedade dos advogados”.
Espaços também mudam
Se os advogados estão se associando mais, se especializando mais e ficando cada vez mais tecnológicos, é
natural que o espaço de trabalho também sofra modificações. Para acomodar o que hoje é necessário ao trabalho interno, desde equipamentos, biblioteca, documentação e até um maior número de profissionais,
muitos escritórios e departamentos jurídicos ainda alteram seus espaços sem apoio especializado, sem planos específicos e sem critérios.
Seja em caso de mudança para novo endereço, seja na reforma das atuais instalações, é necessário a elaboração
de um projeto de arquitetura de interiores por profissionais especializados, onde as necessidades serão levantadas e analisadas de forma a otimizar o espaço físico e o investimento, prolongando sua durabilidade.
“As necessidades específicas de cada escritório e a visão dos sócios com relação ao futuro do seu negócio são fatores primordiais no desenvolvimento deste projeto. Soluções adotadas por uma organização nem sempre são adequadas a outras”, afirma Anna Luiza Boranga, presidente do Centro de Estudos de Administração para Escritórios de Advocacia e Departamentos Jurídicos (CEAE) e especialista na área de gestão e organização de escritórios de advocacia.
Boranga destaca que muitos fatores devem ser considerados no levantamento inicial de qualquer projeto
como: os objetivos do escritório em termos de crescimento; a cultura interna, fluxo e metodologia de trabalho no dia a dia de suas atividades; distribuição racional das áreas administrativas e de suporte; análise da atual utilização do espaço físico disponível e estudo de possíveis alternativas; processos de reorganização
administrativa interna, envolvendo automação e informatização do escritório; localização do imóvel atual, facilidades de acesso, fluxo de tráfego e estacionamento entre outros.
“Deve-se sempre levar em conta que um escritório atraente, de bom gosto ainda que simples, deve ser
considerado como um investimento. Na mesma linha, decoração, mobiliário, impressos, cartões comerciais,
boletins a clientes e brochuras devem estar de conformidade com a imagem que o escritório deseja manter. A padronização visual interna e externa são fatores que contribuem para o marketing das atividades dos advogados”, diz a especialista.
Outro fator essencial é o grau de interação entre os profissionais e a comunicação interna entre os integrantes do escritório. A localização das salas de sócios, advogados e estagiários conforme conceitos de hierarquia interna e necessidades de treinamento são fundamentais para o desempenho interno, assim como seu fluxo. Com esta análise pronta, é possível definir se o espaço disponível é satisfatório e, portanto, bastaria uma reformulação, permitindo o crescimento do escritório, ou se é preciso mudar para um local maior.
Trata-se de um momento adequado para se reavaliar a estrutura organizacional do escritório, revisar metas e objetivos, proporcionando soluções criativas e inovadoras nos procedimentos internos, estabelecendo
assim alternativas para a agilização do fluxo de trabalho. “Este pode ser também o momento oportuno para fusões com outros escritórios, incorporação de novos integrantes, implantação de mudanças e reorganização de procedimentos internos que se façam necessários”, destaca Anna Luiza Boranga. “Em ambientes novos as mudanças costumam ser mais facilmente assimiladas por todos os integrantes da equipe além de proporcionar um impacto psicológico positivo”, completa.
Para a arquiteta Marion Ladowsky, da MSL Arquitetura, que acaba de finalizar dois projetos para escritórios
de advocacia, alguns dos conceitos citados por Anna Luiza Boranga são parte do seu trabalho. “Dentro
de uma filosofia moderna de trabalho, há cada vez menos hierarquias nos ambientes”, diz Ladowsky.
Em um de seus últimos projetos, por exemplo, havia a idéia de utilizar mesas em L em uma grande área para advogados. “Chegamos à conclusão de que mesas retas com divisórias transparentes seriam mais adequadas”, conferindo modernidade ao ambiente. Segundo a arquiteta, salas de reunião de diferentes formatos, por exemplo, servem não apenas para contato com os clientes e equipes internas como também se transformam em salas de estudos para ocasiões em que os profissionais precisam de isolamento para preparar casos e processos.
Com relação à imagem da empresa, Ladowsky enfatiza: “Tudo na empresa, do momento em que você entra até o atendimento que você recebe deve ser pensado como um cartão de visitas, traduzindo para os clientes e associados os conceitos do escritório”.
Demandas futuras
Três grandes eventos ratificados em 2009 serão capazes de gerar um aumento significativo de demanda de serviços jurídicos no Brasil durante os próximos anos: a Copa de 2014, as Olimpíadas de 2016 e a construção
da infraestrutura necessária para exploração da indústria do Pré-Sal Brasileiro. A Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 irão provocar um aumento de demanda em consultoria jurídica, principalmente nas áreas de infraestrutura, envolvendo assessoria na formalização de contratos com os diferentes níveis de governo, assessoria em investimentos no setor de turismo e no setor imobiliário em geral. A descoberta do Pré-Sal e os projetos de exploração do petróleo deverão ter um impacto significativo para diversos prestadores de serviço que gravitam em torno das empresas petrolíferas e também gerarão enorme demanda de consultoria jurídica especializada.
A perspectiva para os próximos anos, portanto, é de crescimento do mercado de serviços jurídicos, privilegiando as estruturas que revelarem capacidade para o empreendedorismo, dedicarem especial atenção à carreira dos advogados e forem sensíveis aos indicadores de desenvolvimento socioambiental do país.