Por mais que o assunto seja pauta com alguma freqüência, o setor de serviços ainda não alcançou a notoriedade equivalente ao seu tamanho e crescimento nos últimos anos no Brasil. O número de trabalhadores no setor de
serviços não financeiros, por exemplo, cresceu 35% entre os anos de 2003 e 2007, passando de 6,4 milhões para 8,7 milhões. A massa salarial acompanhou a expansão, saltando de R$ 61 bilhões para R$ 106,8 bilhões neste mesmo período. O salário médio da categoria em termos reais, já descontada a inflação do período, registrou aumento de 6,3%.
Os dados fazem parte da Pesquisa Anual de Serviços (PAS) referentes a 2006, divulgada pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) – em agosto deste ano serão divulgados os dados do PAS 2008. Um exemplo do fenômeno ocorrido nesses quatro anos é o dos trabalhadores dos serviços de limpeza, que eram 983,1 mil em 2003 e chegaram a 1,47 milhão em 2007. O mesmo foi verificado no setor de alimentação, que teve expressivo aumento no número de trabalhadores – de 948,8 mil para 1,20 milhão. Segundo o IBGE, os serviços ligados à área da informação também cresceram, passando de 390,3 mil empregos em 2003 para 588,5 mil em 2007.
Do ponto de vista institucional, houve um grande avanço. “O setor de serviços ainda não tinha alcançado o devido reconhecimento em nosso país, à altura da sua importância, amplitude e repercussão, apesar de representar 66,7% do PIB. Isso mudou radicalmente desde o dia 8 de dezembro de 2008, quando o Diário oficial da União publicou a autorização do Ministro do Trabalho, Carlos Lupi, criando oficialmente a CNS – Confederação Nacional de Serviços.” As palavras são de Luis Nese, empresário e presidente da CNS que destaca o setor também por seus números: 250 mil empresas e mais de 2 milhões de empregos.
O setor cresce, se desenvolve e se diversifica diariamente, já que os serviços são as atividades mais ágeis e mais facilmente adaptáveis às transformações do mundo. Mesmo no período entre o final de 2008 até meados de 2009, o mercado de serviços foi um dos poucos que se manteve em crescimento, inclusive contratando mão de obra. “Houve uma pequena retração no fim de 2008, motivada pelo término de contratos, mas os três primeiros meses de 2009 já foram positivos”, disse Nese, prevendo uma tendência que se consolidaria ao longo do ano, com crescimento de 4%, abaixo dos 14% de anos anteriores, mas ainda superior ao PIB de 2009.
Segundo o presidente da CNS, não há mágica: “Há setores que se beneficiam em momentos de crise, como o de informática, que proporciona eficiência e redução de custos, e telecomunicações, pois os executivos, em vez de viajar, passam a usar mais os meios de comunicação, como telefone e internet”. Esta flexibilidade do setor permite que os empreendimentos e seus respectivos empregos gerados sejam atenuados, pois novas oportunidades surgem a cada momento. No entanto, se existissem incentivos ao setor, os números poderiam ser ainda melhores.
Sem ajuda de “ninguém”
Apesar da importância, o setor ainda sofre com a ausência de incentivos tributários, o que ficou bem evidente em períodos de turbulência econômica. “O governo lança pacotes para o setor automobilístico, construção civil, linha branca de eletrodomésticos, mas nunca se viu um incentivo para os prestadores de serviços. Outro dia me perguntaram se estávamos sofrendo com a escassez de crédito. Disse que o setor não teve nenhum impacto, pois nunca tivemos crédito, não há linhas de financiamento para a área de serviços. O setor de telemarketing tem 500 mil funcionários. Se as empresas não conseguem financiamento para capital de giro e pagar seus empregados e resolvem dispensar 10% da mão de obra, são 50 mil pessoas demitidas, duas vezes o número de empregados de uma montadora de automóveis”, ressalta Luis Nese.
Como os demais setores, os prestadores de serviços também reclamam da alta carga tributária, superior a 33%. “A CNS tem propostas para uma reforma tributária para o setor de serviços, com a eliminação de todos os encargos sociais patronais sobre a folha de pagamento, entre INSS, Sistema S, Incra, Salário Educação”. A CNS também defende a criação do IVV (Imposto sobre Venda a Varejo), que chamaria Imposto de Vendas a Varejo e Serviço, adicionando um “S” na sigla, IVVS. Parte desse imposto ficaria para o Município, parte para o Estado e parte para o governo federal. Esse imposto poderia ser também uma alavancagem para a contribuição previdenciária. Parte dele poderia ser utilizada exatamente na Previdência Social. Certo é que há uma longa discussão pela frente.
TI puxa crescimento
Relatório da consultoria IDC Brasil apontou um crescimento de 5,13% no mercado brasileiro de Tecnologia da Informação em 2009. Um dos destaques do setor, de acordo com a consultoria, são os contratos de outsourcing e que representam um terço do faturamento geral. Até o final de 2009, havia uma projeção ainda não consolidada de que as receitas obtidas com terceirização teriam um acréscimo de 10% em relação a 2008. Apesar dos números positivos, a crise teve efeito sobre o comportamento de serviços OFFICE STYLE · 23 compra dos serviços de TI. Assim, os ciclos de vendas ficaram maiores, ao mesmo tempo em que as decisões de investimentos passaram a ser tomadas por profissionais de nível hierárquico mais alto. Muitas empresas também optaram pela renegociação e até cancelamento de contrato, o que levou a uma redução da margem de lucro dos provedores.
Os segmentos que mais se destacaram em relação às demandas por serviços de TI foram: comércio, com destaque para o varejo; utilities (empresas de serviços), em especial as companhias de energia; saúde e seguros. Para 2010, espera-se que as empresas de uma maneira geral mantenham na ordem do dia a redução de custos operacionais como prioridade. Isso vai exigir a implementação de sistemas que permitam aumentar a visibilidade e melhorar o monitoramento e análise dos processos e resultados, serviços a serem oferecidos por muitas empresas de TI.
Entre as grandes tendências, a consultoria IDC Brasil prevê um aumento da demanda por outsourcing e por
sistemas que permitam aprimorar o controle dos negócios, o que inclui ERP (gestão empresarial) e Business
Intelligence (BI). Outra prioridade diz respeito à integração de plataformas e bases de dados e consultoria para
governança. Há também a expectativa do crescimento da oferta de serviços de cloud computing (computação
em nuvem), um caminho dado como certo para o futuro das empresas de praticamente todos os setores.
Flexibilidade e sazonalidade
Além das atividades tradicionais do setor de serviços como alimentação, turismo, educação e TI, entre outras, datas especiais ao longo do ano empregam e geram recursos importantes. Com o fim do Carnaval – principal evento sazonal do início do ano – o novo cenário agora é formado pelos chocolates de Páscoa que, até abril, ganharão os supermercados e lojas de departamentos de todo o país. Com isso, estímulo à produção temporária de empresas alimentícias e uma multidão de trabalhadores temporários para o segmento. A expectativa da Associação Brasileira das Empresas de Serviços Terceirizáveis e de Trabalho é que neste período que antecede a Páscoa, que este ano será comemorada no dia 4 de abril, 26 mil postos temporários deverão ser preenchidos em todo o País.
A gigante Kraft Foods, detentora das marcas Lacta e Trakinas, que tem sede em Curitiba, abriu 6 mil vagas em todo o país. Para as linhas de produção da fábrica de Curitiba foram contratados 1.100 pessoas, que começaram a trabalhar em setembro do ano passado e terão seus contratos encerrados no final deste mês. Outras empresas que começaram a contratar são a Cacau Show, que abriu 2.400 vagas em todo país; a Garoto, com 4 mil vagas em todas as capitais; a Nestlé, também com 4.000 vagas nas capitais; a Top Cau, oferece 1.000 vagas em todo pais; e a Village, tem 600 vagas para os trabalhadores das regiões Sul e Sudeste. Além dos postos de trabalho para a produção e venda de chocolates, há um mercado de promotores, degustadores, coordenadores de loja e ações no ponto de venda que são intensificados no período e que ganham novos contornos a cada ano, expandindo
a experiência das marcas através de ações interativas e promocionais com os produtos.
E quando o assunto é sazonalidade, o setor de eventos também se mostra em crescimento. O segmento brasileiro convenções e turismo de negócios apresentou crescimento de 46% no número de eventos captados. Este dado foi apurado pelo Censo 2009, patrocinado pela Confederação Brasileira de Convention & Visitors Bureaux, que constatou ainda que juntos eles responderam por uma receita bruta de R$ 20,9 milhões, em números de 2008.
No total, foram realizados 2.356 eventos no país, dos quais 285 internacionais, 1.016 nacionais e 1.055 regionais. Destes, 34% tiveram natureza técnicocientífico, 19% foram corporativos, 19% referem-se a festas populares e 15% foram eventos culturais. Os participantes gastaram, em média, R$ 583,27 em três dias, período médio de sua permanência num evento. De acordo com a pesquisa, os eventos computados reuniram 19,2 milhões de pessoas, das quais mais de 2,3 milhões eram participantes internacionais.
Os dados apurados pela CBC&VB indicam que menos de 23% dos realizadores registraram algum cancelamento
ou alteração na programação de seus eventos sejam eles nacionais ou internacionais, e que a grande parcela, 55%, não percebeu alteração em virtude do 24 · OFFICE STYLE serviços cenário econômico. “São números que mostraram que, com criatividade e ações conjuntas, é possível driblar os problemas e superar o fantasma da crise econômica”, disse o presidente da CBC&VB, João Luiz dos Santos Moreira. Para ele, parcerias entre os realizadores/ promotores e a rede hoteleira, companhias aéreas e outros favoreceram a permanência por mais
tempo dos participantes nos destinos brasileiros. “E nesse particular, devemos investir esforços para aumentar
e acelerar os bons resultados”, completou. Hoje, o Brasil possui 108 Convention & Visitors Bureaux, dos quais 62% dão relevo às atividades de convenções, ou seja, turismo de eventos, negócios, feiras e congressos; 30% respondem também por turismo de lazer e entretenimento (Visitors); e somente 8% atuam com foco no segmento de incentivo.
Futuro dos escritórios
Proximidade com as regiões urbanas e centrais das grandes cidades e acesso às principais vias facilitado já são realidade quando uma empresa do setor de serviços busca um local para sua sede. Racionalidade espacial, modularidade, respeito ao meio ambiente associado ao conforto ambiental, térmico e acústico são outras características que irão nortear as escolhas dos clientes e os novos empreendimentos. Mais do que tendências, estas características estão se tornando cada vez mais imprescindíveis para o próprio dia a dia das empresas. No caso do segmento de serviços, a agilidade no atendimento a clientes será um dos fatores de decisão no momento de concorrência: as empresas mais rápidas e eficazes sairão vencedoras.
Estruturas tipo open space, integração de equipes num mesmo local, maior número de salas de reunião para atender equipes com mais rapidez e as chamadas áreas de descompressão já são realidade em muitos escritórios, numa evidência clara de que a produtividade estará cada vez mais associada a um ambiente de trabalho leve e bem dimensionado, sem exageros e sem apertos.
Outro aspecto essencial é a tecnologia. Atualmente, graças à tecnologia sem fio, o profissional não precisa, por exemplo, estar dentro do escritório, em frente ao computador, para resolver seus negócios. Com um celular,
palm ou notebook é possível comunicar-se com os colegas de trabalho e ter acesso a diversos arquivos.
Além da Internet, as tecnologias fizeram e fazem com que os profissionais tenham uma nova visão de mercado
corporativo e, conseqüentemente, façam novas adaptações. Devido a esta facilidade de comunicação e acesso de dados, outra tendência em curso está ligada aos home offices, já utilizados em muitos segmentos e que cada vez mais se tornam opções reais para empresas que não necessitam de seus profissionais juntos diuturnamente.
“A todo este processo devem ser agregados também os avanços tecnológicos do segmento dos sistemas de impressão, que permitem a preparação dos documentos com qualidade e velocidade e com custos cada vez menores”, afirma Julio Olivares, diretor da DocPath, empresa especializada em softwares para documentos. Para ele, não se trata apenas de diminuir a quantidade de papel gerado num escritório, mas sim obter novas formas de gerenciamento de conteúdo e documentos, facilitando o trabalho. “Nos escritórios do futuro, serão utilizados equipamentos multifuncionais que permitirão imprimir, copiar, capturar imagens, enviar e receber por fax todo tipo de documento. Sua relação qualidade – preço – benefício é excelente e na prática existem razões
de sobra para que qualquer empresa ou organização disponha pelo menos de um tipo de software”, disse Olivares. As novas tecnologias aplicadas aos escritórios permitirão que seja realizada a gestão do ciclo completo de um documento, desde a sua criação até o momento em que ele chega ao usuário e o posterior arquivamento. Tudo indica que a tecnologia associada à organização serão as tendências mais influentes hoje e no futuro das empresas, sobretudo nas empresas de serviços.