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Muito além do verde

21/11/09 - 04:37 | Atualizado em 21/11/09 - 04:37 Sustentabilidade virou moda mas não deve passar: há como lucrar e gerar empregos em vários segmentos

Mohan Munasinghe, especialista em energia, desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas, premiado em 2007 com o Nobel da Paz, declarou recentemente que as soluções para o nosso planeta não devem ser pensadas separadamente, pois assim podem gerar novos problemas. “Para tornar o desenvolvimento sustentável, é preciso articular e equilibrar três aspectos: o econômico, o social e o ambiental”.

Presente no II Fórum de Comunicação e Sustentabilidade, ocorrido em São Paulo no início de maio, o economista e físico mostrou que há um desequilíbrio no triângulo da sustentabilidade. “Devido à crise, foram destinados cerca de US$ 4 trilhões para estímulo ao sistema financeiro. Para solucionar o problema da pobreza, foram investidos US$ 100 bilhões. O valor para a questão ambiental é menor ainda”, exemplificou. Ele afirma que a mídia tem um papel chave para promover o trabalho conjunto entre os três setores e ajudar na construção de um consumo mais sustentável. Neste mesmo evento, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva também chamou atenção para o que chama de “consensooco”.“Hojetodosconcordamqueé importante preservar o meio ambiente, mas muitas vezes não se responsabilizam por esse processo”.

Tanto as declarações de Munasinghe quanto da ex- ministra podem ser vistos de duas formas distintas – e até antagônicas. Primeira: é mais do mesmo. Proeminentes figuras defensoras do meio ambiente e de um planeta mais equilibrado proferem discursos que apontam diversas dimensões do problema, mas não apontam nenhuma alternativa e, pior ainda, não estimulam quase ninguém a participar das mudanças. Segundo: ainda que as atitudes sejam apenas discursivas, quando dois especialistas notadamente com reconhecimento internacional expõem seus pontos de vista de forma clara, espera-se, no mínimo, uma boa cobertura da mídia sobre as questões discutidas, o que pode gerar interesse popular.

Neste ponto, Munasinghe está mais do que certo: sem o interesse da mídia, questões como mudanças climáticas, construções “verdes” e consumo sustentável continuariam distantes da vida da maioria da população mundial. Afinal, cada um de nós tem que cuidar de seus próprios afazeres a fim de garantir a própria sobrevivência. O fato novo é que esta sobrevivência está ameaçada a médio prazo mas, em seu bojo, engendra possibilidades econômicas que podem finalmente apontar para um horizonte em que sustentabilidade deixe de ser apenas uma palavra, apenas um discurso.


Dificuldade gera oportunidade

Para efeito de comparação, na mesma semana em que o Brasil anunciou seu plano estratégico para o setor de energia, os Estados Unidos por meio de seu presidente Barack Obama determinavam a redução compulsória de 30% no consumo de energia das edificações públicas federais.

O plano de eficiência energética americano compreende, entre outras medidas, que a partir de agosto, 30 produtos eletroeletrônicos como computadores, celulares e aparelhos de ar- condicionado deverão sair de fábrica com metas mais rígidas de consumo de energia. Da Casa Branca saiu a ordem que repercute diretamente nas fábricas em favor da racionalização do consumo de energia. As montadoras de veículos também foram enquadradas, pois a obtenção de ajuda financeira (bilhões de dólares) está condicionada a metas tecnológicas mais ousadas na direção da eficiência no consumo de combustíveis.

No Brasil, a ajuda financeira às montadoras de veículos veio em forma de redução do IPI e empréstimo a fundo perdido de R$ 8 bilhões e não teve nenhuma contrapartida. O mesmo ocorreu com os eletroeletrônicos da linha branca, cujos descontos de IPI foram indiscriminados, quando poderiam estar correlacionados à eficiência energética dos aparelhos. Estes exemplos comparativos servem para ilustrar como as dificuldades econômicas deflagradas em 2008 e a necessidade de ações sustentáveis pra valer são tratadas de formas diferentes. Mudanças comportamentais são difíceis de implantar, levam tempo e investimento que momentos de crise podem transformar em atalhos para uma tomada de consciência negociada: vendem-se carros para que produção se mantenha e a economia gire, tudo graças ao incentivo governamental, que exige a contrapartida da eficiência tecnológica e energética. Sem estes acordos, perdem-se oportunidades de ouro para fazer do discurso uma prática.

Ainda na linha das oportunidades desperdiçadas, o presidente Lula anunciou há pouco a construção de 500 mil novas casas populares para a população de baixa renda ainda em 2009. Nenhuma palavra se ouviu sobre eventuais medidas que pudessem alinhar o Plano Nacional de Habitação às chamadas construções sustentáveis ou verdes.

Exigência de madeira certificada, coleta de água de chuva, coletores solares em lugar de chuveiros elétricos e biodigestores para a conversão de esgoto doméstico em gás de cozinha são alguns dos exemplos de como o plano poderia estimular um novo conceito de construção que já é regra em várias partes do mundo.


Sustentabilidade no DNA

O Guia da Sustentabilidade da revista EXAME escolheu a Natura a Empresa Sustentável do Ano de 2008. A fabricante de cosméticos foi premiada junto a mais 19 empresas consideradas modelo em ações socioambientais, mas pela primeira vez uma companhia foi destacada como a mais persistente e comprometida com a busca da sustentabilidade. ANaturafoiescolhida por seguir um dos preceitos defendidos pelo guru americano de negócios Michael Porter. Ele critica as companhias que têm uma estratégia econômica e outra para a responsabilidade social – quando deveriam ser uma só. A Natura tem a preocupação com a sustentabilidade impregnada em sua estratégia desde a fundação,em 1969,e apoia iniciativas que“beneficiam indivíduos, a sociedade e o planeta”, por meio de apoios e patrocínios esportivos. A maioria de suas linhas de produtos utiliza insumos naturais a partir da colaboração de redes sociais, aliando conhecimento científico e comunidades tradicionais,respeitando assim o meio ambiente e a sociedade.

Como a venda dos produtos da empresa se dá através das consultoras pelo sistema porta a porta, os valores da empresa são apreendidos por intermédio destas profissionais,disseminando o“conceito do bem estar bem para a construção de uma sociedade mais próspera, mais justa e mais solidária”,conforme o website.Empresas com sustentabilidade em seu DNA são o futuro.


Prédios podem ajudar na melhoria climática

Enquanto a Natura mostra que sustentabilidade é parte integrante da sua forma de ser e agir no mercado, fica claro também que não será possível promover uma mudança significativa do dia para a noite. Um bom começo pode vir do topo dos edifícios para benefício de todos nós. Dois pesquisadores da Universidade Cardiff, no País de Gales, fizeram uma estudo em que uma simulação feita em computador analisou os efeitos em 9 grandes metrópoles mundiais se todos os edifícios destas cidades fossem cobertos com vegetação. O resultado é surpreendente: a temperatura local poderia recuar de 3,6 a 11,3 graus Celsius. Além de absorver uma quantidade menor de calor, a vegetação aumenta a umidade do ar, baixando a temperatura. O ganho energético também seria grande, pois com uma temperatura externa menor, o uso do ar condicionado também cairia.

Este pode ser um primeiro passo para construções já existentes, mas há muitas outras práticas que podem ser adotadas na construção civil que direcionam as ações para um consumo mais consciente, sobretudo de energia.


Construção sustentável

Várias iniciativas para a adoção de práticas sustentáveis na construção civil têm mobilizado gente em todo o mundo. E a bandeira é levantada não só por quem está no ramo, mas pelos mais diferentes segmentos da sociedade. O ator Brad Pitt e sua esposa, a atriz Angelina Jolie, estão envolvidos em muitas causas sociais e ecológicas. Recentemente, eles têm se dedicado de maneira especial ao projeto Make it Right (Faça Certo), com o qual pretendem reconstruir o Lower Ninth Ward, bairro de New Orleans, nos Estados Unidos, mais afetado pela passagem do furacão Katrina, em agosto de 2005. Trabalhando em parceria com o grupo ecológico americano Global Green, as novas residências foram construídas dentro dos mais exigentes critérios de arquitetura sustentável. Em locais elevados, para resistir a inundações, todas as casas receberam material estrutural “verde” e eletrodomésticos que economizam energia. A ação despertou o interesse de inúmeras ONGs ambientalistas, entre elas o Green Building Council Brasil – GBC Brasil, que planejava criar um projeto similar em Itajaí, Santa Catarina.

Com o objetivo de diminuir a temperatura do planeta de forma bastante simples, a ideia do GBC Brasil é promover os cool roofs, ou seja, telhados que captam menos o calor do Sol e, assim, auxiliam na redução da temperatura local e até no consumo de energia. Isto porque a expressiva maioria das coberturas são escuras e refletem não mais do que 20% da luz solar. Dados do Lawrence Berkeley National Laboratory, apoiador da campanha deflagrada pelos atores, mostram que pintando estes tetos de branco ou de cor clara, diminuiria sensivelmente os efeitos da incidência solar. Estima-se que para cada 100 m2 de cobertura de tonalidade clara são compensadas 10 toneladas de emissão de CO2.

Presente no Brasil desde julho de 2007, o GBC Brasil tem atuado com eficácia na certificação ambiental de empreendimentos. Para conceder tal crédito ao estabelecimento, a organização não governamental leva em conta uma série de fatores, como a eficiência energética, arquitetura bioclimática, uso racional de água, materiais sustentáveis, conforto no ambiente construído, gestão de resíduos e responsabilidade social. O modelo adotado segue os princípios internacionais de certificação ambiental para edificações presente em 78 paises, o LEED – Leadership in Energy and Environmental Design, outorgado pelo USGBC – United States Green Building Council. Dentre os 18 estados que a ONG brasileira atua, São Paulo é um dos que mais cresce em termos de construções sustentáveis.

Em 2007, a agência do Banco Real (hoje do Grupo Santander) na Granja Viana,em Cotia,região metropolitana de São Paulo, foi a primeira nova construção reconhecidamente sustentável na América Latina. Certificada pelo LEED, o projeto foi desenvolvido pela Superintendência de Engenharia e Arquitetura do banco e teve o acompanhamento do arquiteto Roberto Oranje e do engenheiro Marcos Casado. Na comparação com projetos tradicionais de agências do Banco Real, o modelo sustentável aproveita mais a luz natural e tem piso, portas e batentes de madeira certificada. Restos de argamassa foram encaminhados para uma fábrica de tijolos, da qual foram comprados os tijolos novos para a obra.

A evolução do sistema LEED de selo verde para construções vem crescendo de forma exponencial no Brasil. Em 2004 apenas um empreendimento foi certificado; em 2008, eram 102. O sistema LEED está dividido em 6 categorias: LEED HOMES, LEED-ND (Neighborhood Developments), LEED-CI (Commercial Interiors), LEED-CS (Core and Shell), LEED-NC (News Constructions) e LEED-EB (Existing Buildings). De todas as certificações concedidas no Brasil, destaque para São Paulo e a região sudeste, onde está localizada a maioria das construções com o selo verde.


Empregos verdes

No tripé econômico-social- ambiental, o social também será beneficiado. O principal conselheiro para desenvolvimento sustentável da Organização Internacional do Trabalho (OIT ), Peter Poschen, declarou há alguns meses que a crise é, na verdade, uma oportunidade favorável para as políticas ambientais, com a criação dos chamados“empregos verdes”(postos em atividades ambientalmente sustentáveis). “Não é uma questão de consciência ambiental e sim de cálculos. A falta de consciência energética é um desperdício de recursos”, avaliou o conselheiro.

Para ele, quando um país investe em economia de energia na construção civil, por exemplo, está apostando numa tecnologia que dará retorno financeiro ao longo dos anos, quando aquele prédio construído deixar de gastar.

No Brasil, as estimativas dão conta de cerca de 1 milhão de trabalhadores verdes. Além dos 500 mil empregos
em reciclagem existem outros 500 mil no setor de biocombustíveis. “No Brasil há uma situação mista: ele é líder em algumas áreas como biocombustíveis e reciclagem, mas ainda não há políticas votadas para a geração de empregos nas construções econômicas ou na preservação da Amazônia, que trazem um bom retorno econômico”, analisa Poschen.

De acordo com o conselheiro da OIT, a energia economizada pelo Brasil com a reciclagem de alumínio seria suficiente para sustentar uma cidade de 1 milhão de habitantes durante um ano. Investimento em lavouras de cana-de-açúcar e em hidrelétricas não geraram muitos empregos verdes. “As hidrelétricas geram muitos empregos enquanto estão sendo construídas, mas depois não precisa de muita gente na manutenção. E a cana-de-açúcar tem mecanizado cada vez mais o corte”, avalia.


A Copa “Verde” vem ai

Um grande estímulo para a arrancada no número de empregos verdes pode ser a vinda da Copa do Mundo de 2014 para o Brasil. O evento não vai apenas mexer com a infraestrutura das cidades escolhidas para serem sub- sedes, mas trará novidades aos estádios brasileiros e muitos empregos em diversas áreas. Hoje inadequados para a Copa, os estádios terão a oportunidade de agregar o que há de mais moderno em termos de engenharia e se adequar ao século 21. Uma tendência, pelo que os projetos mostram, é que as obras tendem a perseguir o conceito de arquitetura sustentável, indicando uma “Copa Verde”.

Várias cidades sedes abraçaram a tese do“estádio verde”.A começar pelo possível palco da final da Copa,o Maracanã. O estádio, cujas obras de reconstrução começam ainda neste ano, terá acoplado à sua arquitetura uma praça arborizada e será autossustentável na produção de energia. Isso será possível através de painéis solares que serão acoplados à cobertura de vidro que irá revestir o estádio. Em Manaus, a tese da sustentabilidade ainda é mais evidente. A cidade adotou o slogan “A Copa mais verde do mundo” e promete construir uma arena com 46 mil lugares, levando em conta relatórios ambientais do Greenpeace, do World Wildlife Fund for Natures (WWF) e da Conservation International (CI). A empresa a ser contratada é a alemã Gerkan Marg und Partner (GMP), que construiu boa parte das arenas utilizadas na Copa de 2006.

Brasília também está engajada e, além da arena para jogos, pretende construir um estádio de apoio para treinamentos das seleções. A construção vai se chamar Arena Biogol. No estádio, cada gol marcado reverterá dinheiro para o reflorestamento de uma área do tamanho de um campo de futebol. Os gols também reverterão recursos para as favelas do entorno do Distrito Federal, financiando painéis solares nas escolas destas localidades. O dinheiro para o projeto virá de parcerias com a iniciativa privada.

Outro estádio que será construído dentro do conceito da arquitetura sustentável será o que está planejado para Natal, no Rio Grande do Norte. No projeto, 35% dos 82 hectares onde se erguerá a obra serão destinados à preservação ambiental. Haverá ainda uma estação de tratamento de esgoto para a reutilização dos efluentes.

De acordo com o estudo da Fundação Getúlio Vargas, serão necessários R$ 35,9 bilhões em investimentos no Brasil nos próximos cinco anos. No entanto, ainda conforme a pesquisa, o torneio vai gerar 3,6 milhões de empregos – grande parte deles,empregos“verdes”– e resultar em uma renda de R$ 64 bilhões.Um ótimo estímulo às construções sustentáveis, em todos os níveis.

Créditos: Alexandre Negrini Turina

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