O Brasil passa por um novo ciclo de crescimento econômico, mas essa retomada tem sido acompanhada de possíveis pressões inflacionárias. “A trajetória recente dos principais indicadores regionais ratificou a consolidação do início de novo ciclo de crescimento na economia brasileira”,diz o boletim do Banco Central divulgado no início de fevereiro. o documento enfatiza que o crescimento econômico é sustentado pelo “desempenho da demanda interna e, em menor escala,pelos impactos favoráveis da retomada gradual da atividade econômica mundial”. A demanda interna, por sinal, é a principal causadora das pressões inflacionárias, que mesmo assim não devem atrapalhar o nível de consumo das famílias em 2010.
A meta de inflação para este ano, com base no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), é de 4,5%, com margem de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
“o processo de recuperação da economia deverá seguir sustentado, nos próximos meses, pelo impacto do fortalecimento do mercado interno sobre o dinamismo das vendas e da indústria da região”. Numa avaliação preliminar,analistas apostam que dificilmente chegaremos ao final do ano no centro da meta, mas ficaremos dentro da margem de erro. Mesmo se a necessidade de ajustes cambiais ao longo do ano surgir, a demanda continuará aumentada,agora numa nova fase em que o consumo começa a se diversificar.
No setor financeiro, a tendência é a mesma. Com a retomada do crescimento, o ritmo de fusões e aquisições no setor bancário prossegue (veja quadro), e as instituições financeiras começam a trabalhar com produtos e serviços direcionados a diferentes públicos, o que significa, em última análise, oferecer crédito aos diferentes segmentos da sociedade. Para se ter uma idéia do atual momento,vale lembrar que em janeiro de 2000, as operações totais de crédito do país representavam 24,9% do PIB; já em setembro de 2009,essas operações correspondiam a 45,7% do PIB brasileiro. Mesmo com esse aumento de participação, ainda podemos destacar que, em sua totalidade, as operações de crédito no Brasil estão abaixo de outras economias maiores que a nossa.
Nos EUA, o índice de operações de crédito sobre PIB, por exemplo, é de aproximadamente 249%. Em países como Chile, África do Sul e Holanda, essas operações correspondem à aproximadamente 63%, 141% e 166%, respectivamente.Analisando esses dados,é possível concluir que,mesmo com crescimento e desenvolvimento do mercado financeiro brasileiro, nosso mercado de crédito ainda tem muito a crescer, se comparado a outras economias mundiais. Se observado os padrões internacionais, o volume opera-do em nosso mercado poderá crescer ainda mais de 200%, ou seja, triplicar de tamanho.
De janeiro de 2009 para setembro de 2009, houveuma evolução de aproximadamente 15% no volume total de crédito ofertado, ou seja, o crédito no País está carregando uma tendência de crescimento já a algum tempo, de maneira a promover maior crescimento econômico. Podemos destacar ainda a expansão do crédito imobiliário para pessoa física, que a partir de 2006 cresceu aproximadamente 251%. Em relação às outras modalidades de crédito para pessoas físicas,elas acompanham uma tendência de expansão em nossa economia. Mas ainda há muito espaço para crescer.
DINHEIRO DE PLÁSTICO É APOSTA CERTEIRA
O aumento da renda da população brasileira e a expectativa de maior utilização de meios eletrônicos de pagamento abrem espaço para o mercado de credenciamento de cartões no Brasil, hoje dominado pela Cielo (ex-VisaNet) e redecard. A associação entre Santander e GetNet, anunciada em janeiro, deverá ser acompanhada por outras companhias em breve. A tsys, segunda maior credenciadora no mundo, está no País há dois anos e faz planos para explorar o mercado de credenciamento ainda em 2010.
Empresas credenciadoras são as que autorizam os estabelecimentos comerciais a aceitarem cartões de crédito e débito de uma determinada bandeira. Essas companhias cobram pelo aluguel dos equipamentos, pelo processamento das vendas feitas com os cartões e fazem a antecipação dos recebíveis de crédito. redecard e Cielo controlam cerca de 90% desse mercado no Brasil.
A Cielo tem exclusividade com a Visa, mas o contrato termina em junho. Já a redecard não possui exclusividade formal com a Mastercard, mas até o momento é sua única credenciadora. Santander e GetNet já anunciaram que passarão a credenciar Mastercard para a base de clientes pessoa jurídica do banco espanhol no Brasil ainda neste primeiro semestre. Futuramente, outras bandeiras poderão ser incorporadas à rede.
O consultor Boanerges ramos Freire, especialista em serviços financeiros, acredita que outros bancos podem se interessar por esse mercado e repetir o modelo do Santander, que cuida do relacionamento com o cliente enquanto a parceira se dedica à parte operacional. “Vamos ver uma mudança no mercado com os novos concorrentes. As credenciadoras poderão atrair novos estabelecimentos oferecendo taxas mais baixas ou a ampliação dos serviços”, declarou.
Outros especialistas na área acreditam também na ampliação das redes regionais de credenciamento.Na redecard, o presidente roberto Medeiros, reconheceu recentemente este momento: “A Sorocred tem uma fatia de mercado expressiva onde atua. E o Banrisul também”, disse. A Sorocred atua principalmente na região de Sorocaba (SP), em mais de 150 mil estabelecimentos. Já o Banrisul possui uma rede própria no rio Grande do Sul, chamada de BanriCompras. Há também a Hipercard,maior rede regional brasileira com cerca de 450 mil estabelecimentos e trabalha apenas com a própria bandeira.
Gilberto Dib, da Dib & Associados, lembrou que o potencial de crescimento deste mercado permite a entrada de novas empresas sem que as duas líderes percam seus clientes.“o mercado é muito maior do que os 3 milhões de estabelecimentos de Cielo e redecard”, afirmou.
ESPAÇOS QUE TRADUZEM A EMPRESA
Com as empresas do setor financeiro apontando para uma tendência de crescimento, as atividades ligadas a projetos, novas obras e reformas de espaços físicos também passa um período de aquecimento e mudanças. os bancos comerciais são as instituições financeiras mais próximas da população e a mais evidente modificação de layout do segmento nem é tão recente assim, mas continua em curso: as áreas de auto-atendimento. Inicialmente dispostas junto à porção interna das agências, hoje ocupam áreas específicas, com acessos exclusivos e apartados das demais áreas.A rapidez do auto-atendimento e o horário estendido aos clientes causaram as mudanças físicas, mas o processo continua em curso.
Em 2009, o HSBC anunciou um plano de padronização do layout de suas agências bancárias no Brasil, de acordo com o modelo global adotado pela instituição. Segundo informações da instituição,este processo de adequação das estruturas físicas das agências pode levar cinco anos para ser concluído. Para definir o layout global o HSBC realizou pesquisa com executivos de 100 empresas mundiais sobre questões relacionadas ao atendimento em agência. A pesquisa apontou que a agência bancária deve ser vista como um ativo estratégico do ponto de vista do marketing e comportar valores como flexibilidade, contato pessoal e valorização da experiência do cliente.
Qualquer que seja o novo padrão, uma das principais preocupações estará sempre relacionada às normas de ergonomia. os trabalhadores do setor financeiro são dos que mais sofrem com doenças causadas pelo trabalho que executam. A NR 17 do Ministério do trabalho e Emprego visa estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente.
Segundo esta norma, cabe ao empregador realizar a análise ergonômica do trabalho e optar pelas instalações e mobiliário mais adequados. Há também em diversas cidades brasileiras leis municipais que exigem que os estabelecimentos bancários coloquem vidros blindados, grades e porta de segurança na entrada do auto-atendimento com detector de metais, legislação que deve ser cumprida, independente da padronização das instituições, para garantir a segurança de funcionários e clientes.
Para as demais empresas do setor financeiro que tem baixa presença de clientes em seus espaços ou que basicamente recebem seus colaboradores, como bancos múltiplos, bancos de investimentos, sedes administrativas ou centrais de operações, o conforto, segurança, tecnologia e armazenamento de dados são fatores essenciais e comuns para todos. Com isso, a opção pela busca por edifícios comerciais de alto padrão tem crescido muito nos últimos anos, pois estas edificações já oferecem muitas das características essenciais citadas. A procura fez aumentar a necessidade de novos espaços para acomodar pessoal e equipamentos e, por isso, as construtoras e incorporadoras estão a todo vapor investindo na construção civil, gerando assim um círculo virtuoso de crescimento da economia. Além disso, muitos desses novos usuários têm se diferenciado do que poderíamos chamar de ocupantes tradicionalmente encontrados em edifícios Classe A, já que suas necessidades são bem mais específicas, principalmente no que diz respeito à infraestrutura.
Sistemas de cabeamento, transmissão wireless de dados, disponibilidade de espaço para antenas, centrais de armazenamento de dados, entre outros, precisam estar alinhados com o que há de mais avançado nos países de primeiro mundo, inclusive com certificações green building, levando ao conforto térmico e acústico associado à racionalização dos sistemas de ar condicionado, energia elétrica e água.
O sigilo é outro fator importante que impacta os novos projetos para escritórios do setor financeiro.além da necessária proteção dos dados e informações,os cuidados com a escolha e manutenção de equipamentos tecnológicos somam-se à manutenção das estruturas físicas (pisos, móveis, iluminação, entre outros), pois os reparos constantes implicam na contratação de terceiros para a execução do trabalho, ponto crítico para a segurança de uma forma geral.
Por fim, vale destacar que diferentemente do que ocorre com a infraestrutura de transportes, por exemplo, que apresenta ainda graves deficiências, o setor financeiro e de mercado de capitais do Brasil é tecnologicamente avançado quando comparado aos padrões internacionais, e conta com estrutura para atrair investidores e clientes, num ciclo virtuoso que deve seguir em crescimento nos próximos anos.
FUSÕES E AQUISIÇÕES
De acordo com a consultoria PricewaterhouseCoopers, a tendência é de que o número de negócios re-tome o patamar do ano de 2007,quando foram registradas 721 transações desse tipo. O crescimento em relação às 630 transações verificadas em 2009 deve ficar em torno de 14%. As estimativas da consultoria referem-se apenas a companhias de grande e médio portes. O cenário positivo esperado para os próximos meses tende a deixar as empresas mais atentas a oportunidades de negócios e propensas a investir nessas operações. Há também as boas perspectivas relacionadas à realização de eventos no Brasil, como a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016, que movimentarão sobretudo o segmento de construção civil.
e os movimentos já começaram: só no primeiro mês deste ano foram confirmadas 63 transações envolvendo fusão e aquisição, o que transforma o período no melhor janeiro dos últimos cinco anos. Para comparação, no primeiro mês do ano passado houve 38 negócios e, em janeiro de 2008, foram registrados 59. De acordo com a consultoria, um dos destaques do período foi a criação de uma joint venture entre o grupo sucroalcooleiro Cosan e a petroleira angloholandesa Shell, para a produção e distribuição de biocombustíveis no País. No setor bancário foram 68 operações em 2009. Aliás, o segmento que mais vem se destacando é justamente o financeiro. “O setor financeiro chamou atenção no ano passado”, afirmou o sócio da PricewaterhouseCoopers alexandre Pierantoni. Para exemplificar, houve a compra de participação no Banco Votorantim pelo Banco do Brasil (BB), a venda do Panamericano para a Caixa econômica Federal (CeF) e a unificação das operações de seguros residenciais e de automóveis de Itaú Unibanco e Porto Seguro.
Empresas de Tecnologia da informação (Ti), mineração e serviços também tiveram participação relevante no ano passado em operações de aquisição e fusão.
Para 2010, a expectativa é de diversificação de setores, incluindo mais áreas relacionadas ao consumo. Ele destacou que o cenário positivo para a economia brasileira ao longo de 2010 também deve atrair o interesse de grupos estrangeiros por companhias nacionais.
Ainda de acordo com a avaliação da Pricewaterhouse, o Banco Nacional de Desenvolvimento econômico e social (BNDES) vai continuar a desempenhar um papel fundamental como fomentador de aquisições e fusões no Brasil. Em 2009, a instituição aprovou um volume recorde de empréstimos para efetivação desses negócios. No ano passado, o montante atingiu a casa dos R$ 170,2 bilhões, 40% mais que em 2008. Vale destacar que os recursos foram liberados pelo BNDes ao longo de um ano que foi pautado pela escassez de crédito em virtu-de da crise financeira internacional.
Texto | Alexandre Negrini Turina