Um encontro como este do II Congresso Brasileir da ABDEH que enriquece a si próprio, bem como nos enriquece a todos; tem como dever multiplicar as práticas bem sucedidas e, penso eu, demonstrar a importância de outros conceitos e elementos, para bem atender e tratar as pessoas. Imagino algo como um confronto da Arquitetura da Vida com a Arquitetura da Dor.
Quero ainda sinalizar que minhas experiências se situam no âmbito do serviço público, razão pela qual, conto desde já, com a compreensão dos amigos para a minha inquietude e minhas considerações.
São fruto de uma caminhada em Direção de Hospitais Públicos, em Gerências de Programas, em comandos de Secretarias e Fundações e na observação do dia-a-dia da assistência à saúde, e aí, em todos os níveis; além do saudável convívio com pessoas não menos inquietas.
O tema geral do congresso é extremamente interessante e, ao meu ver, um tanto complexo: envolve pessoas (doentes, seus familiares, visitantes, prestadores de serviços), toda uma rede de atividades complementares; espaço físico (disposição, ambientação, sinalização), espaço relacional e gestão.
Sob o ponto de vista dos Conceitos, acho importante situar o significado do termo Utopia nos dias atuais, sua relação com a tecnologia e a humanização, para depois focar as percepções sobre a assistência médica.
Ao resgatarmos o sentido da utopia – no século XVI – inspirada nas grandes viagens de descobertas – significa “cidade ideal e novo mundo” ou segundo Thomas Morus – duas palavras gregas “OU e TOPUS” – um bom lugar, lugar ideal da sociedade igualitária – ilha da Utopia.
Segundo o dicionário Michaelis - utopia é o que está fora da realidade; Mestre Aurélio se refere à utopia como “um projeto irrealizável, quimera”. Qualquer manifestação contrária ao “status-quo” é não aceitar o mundo como ele é.
Karl Mannheim, sociólogo alemão, considerou a Utopia, como “algo destinado a realizar-se, ao contrário da ideologia, que não é passível de realização, um fundamento da renovação social”.
Nicola Abbagnano, filósofo italiano, diz que a Utopia “representa a correção ou a integração ideal de uma situação política, social ou religiosa existente, que pode ficar no estágio de simples aspiração ou sonho genérico, mas também pode tornar-se força de transformação da realidade, assumindo corpo e consistência suficientes para transformar-se em autêntica vontade inovadora e encontrar os meios de inovação”.
Para o Jurista João Baptista Herkenhoff, em sua obra “Direito e Utopia”, “ao contrário do mito, Utopia é a representação daquilo que não existe ainda, mas que poderá existir se o homem lutar para sua concretização. O mito ilude o homem e retarda a história. A Utopia alimenta o projeto de luta e faz a história”.
Mais recentemente, o Prof. Dr. Henrique Ratner (USP), em artigo intitulado “O resgate da Utopia”, na Revista Espaço Acadêmico, assim a define: “Utopia não é apenas um sonho, mas um protesto de todos aqueles que não se conformam com as injustiças sociais e desigualdades”.
Logo, a maior utopia seria possibilitar a todos, saúde com a mesma tecnologia e humanização que, hoje, bem poucos têm acesso. Muito bem exposto nos nossos dias, pela mídia, no confronto, assistência pública versus assistência privada. Decerto que existem exceções e elas aí estão para confirmar a regra.
Tentando a superação da dicotomia “corpo público x corpo privado”, categorização utilizada por Maria Ângela de Albuquerque: “corpo público”, classe social desprovida de bens, desempregada, para quem, via de regra, sobram filas, exames marcados quando muitos já morreram, aparelhagem quebrada, médicos que mal olham ou tocam nos doentes etc, etc... e corpo privado, referindo-se a uma outra classe social que, por possuir renda, tem acesso às tecnologias e tratamento de ponta dos hospitais privados e de referências, além de um tratamento mais humanizado. Tem início a conseqüente e inevitável trajetória, que se inicia no espaço da falta do acolhimento, à caracterização do “corpo objeto” versus “corpo do Ser” - Sujeito.
A sobrevalorização da doença sobre o Doente, com repercussões não menos preocupantes, inclusive no chamado “Corpo Privado” – onde uma verdadeira enxurrada de solicitações de exames complementares sofisticados, estão a substituir os procedimentos mais tradicionais, nem por isso menos importantes, (alta tecnologia x anamnese e exames tradicionais). Como exemplo, dois amigos, com mais de 65 anos e com algum grau de obesidade, procuraram atendimento médico com dores nos joelhos. Submeteram-se a inúmeros exames complementares: tomografias, ressonâncias magnéticas e até biópsia óssea, antes do “velho” exame de RAIO X, que, finalmente, lhes diagnosticou uma artrose. A desindividualização da vida quando de sua manutenção através de aparelhagens de última geração nos modernos CTIs. E, quanto ao “Corpo Público”, não é incomum assistirmos situações que beiram o descaso. Na semana passada, assistimos um trabalhador acidentado perder um dedo após percorrer inúmeros hospitais sem obter o atendimento que necessitava.
Preocupar-se com o bem estar é promover saúde. Qualquer pessoa que é bem recebida, com gentileza, presteza e atenção, que reconheça o espaço onde se encontra como um espaço acolhedor, que tenha informações acessíveis, experimenta uma sensação de bem estar o que logo é estampado em seus rostos, com sorrisos e expressão de contentamento. Tal qual a boca, os outros órgãos também respondem ao bem estar, fazendo com que funcionem de forma mais saudável.
Estou falando da digestão, respiração, funções sexual, cardíaca, enfim todas as funções.
Algumas experiências por mim vividas seguem comigo vida a fora e me balizam para as minhas atitudes no dia-a -dia, quer na minha atividade de profissional médico, quer nas atividades gerenciais.
Marcou no meu imaginário uma primeira imagem de um hospital, Santa Casa de Misericórdia, em Alagoas, eu ainda menino, vi aquele corredor enorme, com o seu chão brilhando e na parede aquele retrato d’aquela enfermeira repreendendo a todos que por ali passavam, com o dedo em riste a exigir silêncio. À época, eu já achava estranho alguém sair dali com saúde.
Já médico, em uma das crises de laringite estridulosa que acompanhou a infância de minha filha, talvez na mais forte delas, ao procurar um serviço para em atendimento emergencial, e era um serviço particular, a profissional que deveria atendê-la, pediu que esperássemos até que ela acabasse de tomar o seu café da manhã. Ao identificar-me à colega e falar de nossa angústia, minha e do restante da família, fui questionado, pois parecia que eu não era médico. E, naquela hora, não era mesmo. Era um pai!
Quando diretor de um dos hospitais psiquiátricos, à época, do Ministério da Saúde, aqui no Rio de Janeiro, ocasião em que estávamos implantando um processo de humanização, um profissional contrapunha à idéia, com a afirmação que, se o hospital ficasse bom, os “pacientes” jamais iriam querer sair de lá.
Há no folclore psiquiátrico, a história de um psiquiatra que amarrava a cadeira do doente à sua mesa para agilizar o atendimento. Nesse mesmo serviço ambulatorial fiquei impactado com um doente, que após ser atendido, esperou para agradecer-me por lhe ter cumprimentado, apertando-lhe a mão.
Uma situação que me deixa perplexo é a despreocupação com as portarias e recepções dos serviços. Redutos de vigilantes, nada contra o profissional, e de atendentes, em sua maioria sem o preparo adequado. Não raro encontramos em recepções pessoas conversando ao telefone, ou mesmo com outros colegas, enquanto clientes ou familiares aguardam, na sua dor, o momento de ser atendido.
Em outra ocasião, em que dirigíamos outro hospital, ainda do Ministério de Saúde, resolvemos transformar a porta de entrada do serviço, em um serviço de excelência. Colocamos para este atendimento os melhores e mais envolvidos profissionais que dispúnhamos – equipe multidisciplinar – e dotamos de todo o conforto, o espaço físico para a recepção dessas pessoas. A resposta foi extraordinária. Bom acolhimento e informações acessíveis. Constatamos uma enorme e importante repercussão nos mais diferentes setores do hospital. Podemos observar nesses episódios, a presença dos espaços físico e relacional.
Ainda se vê o império da burocracia sobre o atendimento; enquanto não se preencher o bendito papel na recepção ou no serviço privado não se provar documentalmente ser conveniado a um determinado seguro ou grupo de saúde, o fundamental, a razão de a pessoa estar ali, o atendimento médico, não acontece.
A dificuldade em se adquirir um lanche, um jornal, uma pilha para rádio em um hospital público é uma loucura, o que o leva a parecer estar situado dentro de uma feira livre, tão grande e diverso é o número de vendedores à sua porta. Isso quando não conseguem, através do “jeitinho brasileiro”, entrar no hospital.
Uma outra questão que me acorre sempre são as barreiras impostas às visitas ou mesmo aos familiares através de horários rígidos e que atendem principalmente à comunidade hospitalar, médicos, funcionários e dirigentes. É como que se o hospital não existisse para o doente. É comum se dizer que o único problema do hospital é o doente, que sem esse, tudo estaria ótimo.
A questão da informação é crucial. Em quase 100% das vezes que presenciei, ou necessitei de informações em hospitais a resposta foi zero. Parece até um arquétipo.Há poucos dias, a tia de minha esposa foi a um hospital com o marido, hospital onde ele é regularmente atendido. Trata-se de uma pessoa diabética e que apresentava um ferimento infectado no pé, o que indicava um curativo com um maior cuidado. Aí começou a “África”. O hospital não pode fazer curativo; e por quê?
Ninguém sabe, ninguém diz. A acompanhante procura falar com alguém, com um mínimo de poder para que a ajude. Não encontra, nem a alguém que lhe informe. Por fim alguém, outro usuário, lhe orienta a procurar a ouvidoria, o que não foi fácil encontrar; parece que a ouvidoria não gosta de ouvir e, por isso, está escondida. Cômico, se não fosse trágico. Para dar mais dramaticidade ao episódio, nesse vai e vem, a acompanhante perde o seu selo de identificação, que se descola de sua blusa e o vigilante obriga-a a sair do hospital para lá fora se identificar novamente. Isso sob protestos dos demais doentes e familiares que se encontravam no recinto. Como dizia o saudoso Bussunda, “fala sério!”. Bem, apesar de tudo o curativo foi feito.
E quanto à terminologia utilizada: paciente: termo abominado pela Dra. Nise da Silveira; pacientes serão eles ou nós é que deveríamos ser?
Paciente social, paciente terminal. Terrível! As pessoas são e, enquanto vida tiverem, serão sempre pessoas; quando as classificamos, incorremos em um terrível risco de pensarmos para elas um espaço diferente, especial. Tenho horror a coisas especiais. A história nos tem demonstrado os recantos de horrores que se iniciam como espaço especial, inclusive com a participação multidisciplinar: profissionais da saúde, arquitetos, engenheiros e assim por diante.
O cuidado com o ambiente hospitalar, sua organização, higiene, rotinas não devem e nem podem ser vistos como antagonistas da humanização. A participação efetiva dos usuários dos serviços, seja na organização de normas e rotinas dos mesmos ou até pelo conhecimento destas, é fundamental para o sucesso deste. Ninguém entende mais da sua dor que o dono dela! Estou falando da transdisciplinaridade.
Finalizando, penso que o hospital ainda é inóspito. E aqui encontro pessoas que inquietas, procuram, estudam, pesquisam formas de fazê-lo diferente. E que entendem, como tão bem o diz o Professor Henrique Ratner: “utopia não é apenas um sonho, mas um protesto de todos aqueles que não se conformam com as injustiças sociais e desigualdades”.
CARLOS AUGUSTO DE ARAÚJO JORGE
Médico Psiquiatra - Ministério da Saúde – Rio de Janeiro.