Neste trabalho procura-se destacar o que o ambiente de saúde, em diversos níveis de sua atividade assistencial, poderá produzir para a sua sustentabilidade e, por conseqüência, da própria sociedade. Para tal, é importante abordar os conceitos mais recentes de intervenções em edificações hospitalares que estão em discussão por toda as comunidades que, de alguma forma, tenham responsabilidades pela atividade humana.
A questão da sustentabilidade e a formatação do seu conceito têm sido trabalhadas ao longo de uma série de importantes eventos mundiais, englobando não apenas a foco das questões ambientais, da arquitetura ou da engenharia, mas de toda a atividade humana.
O conceito da sustentabilidade tem se convertido atualmente em uma meta intrinsecamente vinculada aos novos projetos e intervenções que envolvam a questão ambiental, tanto no nível sócio-político, econômico, quanto da percepção da sua importância individual para cada habitante deste planeta.
Em relação ao planejamento e à gestão dos ambientes de saúde, a ação sustentável pode agregar valor diretamente para o conjunto dos usuários. Da mesma forma, pode-se incorporar intrínsecas contribuições não medidas, não mensuráveis e não perceptíveis diretamente que podem servir para determinada parcela da humanidade.
Grande parte do projeto sustentável está diretamente relacionada com o desenvolvimento energético mediante o uso de técnicas que utilizem o principio da análise do ciclo de vida - ACV, com o objetivo de manter o equilíbrio entre os recursos determinados pelo investimento e o valor dos ativos fixos em longo prazo (EDWARDS, 2004).
Desta forma, podemos considerar que projetar sustentavelmente a arquitetura de um edificio hospitalar significa criar espaços que sejam ambientalmente saudáveis, viáveis economicamente e sensíveis às necessidades sociais. Mas que considerem também, em toda a sua amplitude, as dimensões sociais, econômicas, ambientais tecnológicas e ecológicas.
Desde 1972 a Organização das Nações Unidas (ONU) durante a Conferencia do Meio Ambiente Humano na Cidade de Stockholm, Suécia, acrescentava o meio ambiente à lista dos problemas globais e que, posteriormente, viria a resultar na criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)1. O Relatório Oficial deste evento, intitulado Os Limites do Crescimento, alertava que os recursos naturais estavam sendo dilapidados muito rapidamente e que não haveria recursos remanescentes para permitir o processo do desenvolvimento acelerado que o mundo estava imprimindo. Alertava ainda que, o elevado crescimento da população mundial estava se transformando num dos principais fatores de risco à sobrevivência da própria espécie humana no futuro (MIHELCIC, 2003).
O HOSPITAL SUSTENTÁVEL, DEMANDAS E ALTERNATIVAS AMBIENTAIS
Os hospitais, por serem grandes consumidores de energia e outros recursos, passam a representar um importante foco de estudo na avaliação do ciclo de vida das edificações.
Alguns importantes referenciais devem ser considerados nessa avaliação para o entendimento do impacto passível de ser produzido e que, de certa forma, pode levar em conta os seguintes aspectos:
• Funcionamento intensivo do estabelecimento ao longo das 24 horas diárias;
• Alto número de pessoas circulantes;
• Distintos centros de trabalho com demandas energéticas diferenciadas;
• Magnitude das instalações;
• Necessidade de dispor de sistemas estratégicos de reserva de equipamentos para fornecimento de energia.
A ineficiência energética e o desperdício são imagens comumente vinculadas ao ambiente de saúde. Seja por descontrole da gestão administrativa e operacional, seja pelas características funcionais que obrigatoriamente demandam sistemas de reserva disponíveis a qualquer momento, sobretudo nos locais onde se processa a assistência médico-hospitalar.
No entanto estudiosos e profissionais com atuação no ambiente hospitalar concordam que é possível trabalhar-se as deficiências através de ações de baixo custo e medidas simples e com baixo impacto ambiental. Algumas dessas ações poderão ser alteradas através de modificações de procedimentos inerentes à conduta do capital humano referido anteriormente - os usuários - em todas as escalas de atividades profissionais.
Outro componente facilitador desta percepção de sustentabilidade está na aquisição dos equipamentos e materiais para a operacionalidade da função hospitalar. Para tal deve-se considerar como prioridade a aquisição daqueles que tenham a identificação de reciclabilidade, economicidade energética e possibilidade de reutilização.
Estes conceitos acima descritos são tratados por Brian Edwards (2004, p.67) como “a principal estratégia para melhorar as condições de vida sem produzir um desastre mundial”. E que, para se atingir tal estratégia, há que se aplicar o conceito dos quatro erres: reduzir, reutilizar, reciclar e reabilitar.
Embora a referência aos três erres – reduzir, reutilizar e reciclar - seja bastante conhecida, o pesquisador britânico Brian Edwards (2004), autor de diversas publicações sobre o assunto, acrescenta a necessidade de incluirse o quarto erre, reabilitar como uma forma de reparar os danos que as contaminações têm causado no habitat humano, conforme Figura 1.
A reabilitação é apontada como uma das grandes soluções para as edificações que mantenham componentes apreciáveis e compatíveis de serem atualizados sob o aspecto funcional e econômico, sem que haja o prejuízo da sua demolição. As discussões recentes sob este conceito passaram a utilizar um neologismo recente para a indústria da construção civil, referindo-se a esta estratégia como retrofit3. O verbo retrofitar tem sido muito utilizado na indústria de equipamentos e na construção civil e, ao longo da última década passou a ser utilizado em diversas atividades que ensejem o sentido de refazer.
Nas edificações hospitalares, em particular, as contribuições dos danos ambientais que são produzidas ou que permanecem nas edificações podem perdurar por longos períodos, contribuindo como focos de contaminação e de resíduos. Logo, as estratégias de reabilitação das edificações podem representar uma importante contribuição, não apenas para os edifícios em si, mas para a própria saúde urbana das cidades.
O hospital, assim que é edificado, passa a ser um importante ativo fixo. Sua construção implica em investimentos e utilização de recursos que as futuras gerações deveriam reutilizar ou poder adaptar a novos usos. Aqui o conceito e a necessidade de flexibilidade da construção aplica-se com importante rigor.
Ao projetar-se o hospital, o profissional trabalha o programa de necessidade físico-funcionais arquitetônicas de forma a contemplar as atividades a serem realizadas naquele ambiente. Portanto, o edifício deve se ajustar ao programa e aos parâmetros construtivos de engenharia e arquitetura. No entanto, em uma época de intensa dinâmica social e tecnológica, as edificações tendem a perder muito rapidamente sua função original exigindo adequações, seja porque mudaram as expectativas sociais ou econômicas, sejam porque novas tecnologias os fazem obsoletos (MACIAS, 2004). ?Assim sendo, alguns componentes projetuais podem significar qualidades que tendem a aumentar as possibilidades de reutilização e a promoção do projeto sustentável dos ambientes de saúde. ?Vejamos, a seguir, algumas avaliações que poderão contribuir para a concepção projetual de um hospital sustentável.
I -Exclusividade funcional
II - Iluminação e condições naturais;
III – Simplicidade funcional do projeto;
IV -Previsão de substituição das partes;
V - Máxima durabilidade;
VI - Materiais de construção saudáveis ou ecológicos;
VII - Qualidade da construção;
VII – Otimização da vida e do fim da vida dos produtos;
VIII - Acesso a fontes de energia renováveis.
RECOMENDAÇÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS
A extensão e amplitude do assunto não são possíveis de serem abrangidas em poucas páginas, mas é possível de ser destacada e expressa em sua importância conceitual. Portanto, podemos considerar que as abordagens tratadas no presente trabalho pretendem contribuir para representativa inserção do conceito da sustentabilidade na elaboração do projeto do hospital. E tanto quanto possível, contribuir para sua qualificação funcional e assistencial.
O hospital sustentável mais que um conceito deverá, em breve, ser uma formalidade contida nas leis, normas, regulamentos e nos princípios da formação dos profissionais que tenham a responsabilidade da concepção projetual.
Da mesma forma, este não é um assunto esgotável, muito pelo contrário ele é dinâmico. Dinâmico e complexo assim como os componentes da assistência à saúde e dos edifícios concebidos para tal, e que devem contribuir tanto para os modelos assistenciais como para as ações projetuais e construtivas.
FÁBIO BITENCOURT
Arquiteto, Professor, Vice-Presidente de Desenvolvimento Técnico-Científico da ABDEH - Associação Brasileira para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar