Há um antigo dito popular que diz: “por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”. Mas, quando o assunto em pauta são as fachadas de edifícios esta máxima não se justifica. É possível dizer que hoje parte do setor da construção passa pela transição entre métodos por vezes artesanais e a exigência de planejamento técnico, incluindo as fachadas, quebra-cabeças intrincado mas recompensador para a atuação de projetistas.
As fachadas representam o maior sistema de uma edificação e, quanto mais alto o prédio, maior a área de fachada e, portanto, maior o consumo de materiais. Sua importância vai além da estética, pois integra e exige que projetistas e construtores entendam cada vez mais como a obra se comportará com relação à quantidade de luz natural, temperatura interna, segurança e manutenção periódica depois de pronta.
Compreender o comportamento da estrutura, a influência dos ventos, do Sol e das chuvas ao longo do ano passa a ser fator primordial para a concepção do edifício. O risco de um projeto mal feito ou mal executado pode até mesmo estimular um controle mais rígido de todo o processo, implicando o acompanhamento cada vez mais de perto dos projetistas e engenheiros da obra. Há uma incipiente tendência à viabilização de novidades tecnológicas, sempre motivada pela relação custos imediatos versus vantagens de longo prazo, argumentos ainda muitos fortes para a escolha de materiais, anteparos e acessórios.
“O mercado já absorveu totalmente a necessidade dos novos projetos refletirem uma política de sustentabilidade, visando preservação de energia e do meio ambiente”, disse Botti.
A importância do projeto
O projeto tem a função de permitir que, na fachada, estrutura, alvenaria, esquadria, revestimento e impermeabilização funcionem de forma integrada. Também prevê meios técnicos para que o revestimento seja executado corretamente e não deixado ao improviso, à prática de obra, sem critérios de execução. Especificar os materiais, inserir reforços, posicionar juntas e selecionar técnicas construtivas para obter uma fachada durável, também são etapas que devem constar na fase de projeto.
O arquiteto Alberto Botti, da Botti Rubin Arquitetos, não vê espaço para empresas do setor que deixem de levar em consideração a importância das fachadas para qualquer projeto corporativo.
Já o engenheiro Luiz Henrique Ceotto, da Tishman Speyer, destaca a importância que as fachadas corporativas vêm ganhando nos últimos anos”. Como por exemplo, as fachadas ventiladas que oferecem um maior conforto térmico e a conseqüente queda no consumo dos condicionadores de ar. A execução também é facilitada assim como a segurança e os efeitos de deformação da estrutura, estes últimos praticamente eliminados. Com estas e outras vantagens técnicas – além do aumento da vida útil – é uma tendência estratégica nos projetos arquitetônicos.
Paralelo a esta opção, Ceotto aposta que as fachadas com cerâmica aderida possam receber um novo impulso em breve, graças a pesquisas em andamento e já em fase final que buscaram desenvolver argamassas e outros materiais selantes com um maior desempenho. “A cerâmica aderida é uma ótima opção; se os problemas de descolamento da cerâmica [que costumam ocorrer em vários casos, após alguns anos da instalação] forem resolvidos, tudo tende a melhorar: facilidade de manutenção, segurança, durabilidade entre outros fatores”, afirma o engenheiro.
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É praticamente consensual entre os profissionais do setor que o grande desafio ao projetar e executar uma fachada está ligado ao conforto térmico dos edifícios, sobretudo os corporativos, onde um grande número de pessoas circulam e trabalham a maior parte do dia. Ao se pensar num edifício ecologicamente correto, o aproveitamento da luz e calor natural são fatores principais, inclusive para que haja a diminuição do consumo de energia elétrica. Menos lâmpadas e condicionadores de ar ligados geram um custo energético menor e uma economia ecológica, por consequência.
Veja o que o arquiteto Edo Rocha, proprietário da Edo Rocha Espaços Corporativos tem a dizer sobre isolação térmica: “Como não há inverno [rigoroso] no Brasil, [quase] não há revestimento térmico nas fachadas. Muitos prédios usam tijolos e concreto em que a radiação penetra no edifício. Sem isolamento térmico nas fachadas, o custo do desperdício está na faixa de 15% do consumo de energia. Na China, o governo financia o revestimento térmico em casas e edifícios, diminuindo sensivelmente os gastos com calefação e refrigeração. Um bom material de isolamento - muito importante na arquitetura - é o vidro com bom poder de sombreamento. Os caixilhos diminuem o consumo de ar condicionado, que corresponde a outros 10% no consumo de energia nos edifícios.”
Ceotto também vai ao encontro da opinião de Edo Rocha:“Acredito que o mercado estará cada vez mais atento aos vidros, principalmente àqueles que se mostrarem com uma maior eficiência térmica”. Já o arquiteto Roberto Aflalo Filho, sócio da Aflalo & Gasperini Arquitetos, vai além e aposta numa grande evolução no mercado de vidros. “O mercado busca produtos tecnológicos que proporcionem uma maior luminosidade aos ambientes sem diminuir o conforto térmico”, sentencia. Aflalo lembra que em países da Europa como a Alemanha, por exemplo, a preocupação com a pesquisa de novos materiais e a necessária relação custo benefício já existe há muito tempo e, nos últimos anos, tem sido intensificada no Brasil. “Investimento inicial alto é uma questão relativa: muitas vezes, gasta-se mais no início, mas a economia vem com o tempo, principalmente com manutenção e energia. Essa onda ecológica pode ajudar muito nos projetos”, destaca.
O isolamento acústico é o outro fator de grande importância para as fachadas. Ceotto aposta no lançamento de esquadrias com uso de PVC, sobretudo em razão da queda na cotação dos preços do petróleo, matriz deste material. Segundo ele, o PVC ficou ausente em grande parte dos projetos por conta do preço elevado. Outra expectativa está ligada ao uso da espuma e alumínio nas obras, dando forma e tornando-o maciço e resistente.
Anteparos, caixilhas, células fotoelétricas (que acendem e apagam conforme a incidência ou não da luz natural) e até persianas com novos formatos de palhetas também devem movimentar este mercado ligado às fachadas. O arquiteto Aflalo Filho define bem o atual momento: é a “consciência dos construtores do desempenho de materiais e investimentos” que irá estimular o desenvolvimento de novidades para os próximos anos.
Um último mas não menos importante aspecto que pode se transformar em tendência é a gestação do projeto e execução de forma umbilical, integrados. A maneira como muitas empresas constroem, ainda hoje, gera uma inevitável partilha com sobreposição de responsabilidades.Na prática, compra-se sistemas de alvenaria, vedação e de revestimento, e define-se responsabilidades em contrato. Ao contratar materiais, projeto e mão-de-obra de origens diferentes, as responsabilidades se diluem. Entendendo a responsabilidade envolvida no ato de construir, as construtoras teriam que definir a solução construtiva que vão adotar do início ao fim. Caso contrário, podem ter surpresas se não fizerem ensaios para verificar a adequação dos materiais à realidade da obra. No caso das fachadas, a manutenção poderá custar caro no futuro pela falta de integração de sistemas construtivos.