ARTIGOS

A qualidade do ar interno nos ambientes hospitalares

04/11/09 - 04:35 | Atualizado em 04/11/09 - 04:35

Ana Carolina Potier Mendes (1); Erica Pinheiro (2) (1) Arquiteta e Urbanista formada pela Universidade Estadual de Londrina (2001), Mestre em Engenharia Civil pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da UNICAMP (2007) (2) Arquiteta e Urbanista formada pela Universidade de Franca (1995), Mestre em Engenharia Civil pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da UNICAMP (2007) Autor correspondente: (1) Rua Juiz de Fora, 100 Cep 86062-680, Londrina-PR, Brasil. E-mail: anacarolina@prosaude.arq.br


RESUMO

A industrialização e a necessidade de eficiência energética têm influenciado o projeto e a construção de edifícios, tornando-os mais fechados e selados para minimizar perdas através das trocas de ar interno e externo. Com isso, a concentração de poluentes do ar interno tem aumentado, sobretudo com o maior uso de produtos sintéticos, a desencadear possíveis problemas de saúde à população. Nesse contexto se inserem os hospitais com a função de tratar os males da saúde, mas que podem estar simultaneamente contribuindo para esse mesmo mal. Assim, o artigo apresenta alguns aspectos dessa contradição, cujo objetivo é descrever alguns elementos que interferem a qualidade do ar em ambientes hospitalares, a partir de conceitos de sustentabilidade, e de como essas questões ocorrem e são abordadas pelas instituições. Para tanto, tem-se uma revisão bibliográfica e posterior estudo de caso, realizado por meio de entrevistas, a um Hospital Universitário no Brasil. Apesar da pouca abrangência da pesquisa, os resultados demonstram que há diversos fatores que interferem a qualidade do ar em ambientes hospitalares e que devem ser levados em consideração, pois influenciam a saúde de pacientes e profissionais naqueles estabelecimentos. Entretanto, a discussão parece ainda ser bastante “tímida”, apesar de se observar uma tendência de preocupação nesse sentido. Em comparação aos países desenvolvidos, parece haver significativo atraso na discussão sobre projeto e construções sustentáveis por parte dos hospitais brasileiros, o que reforça a necessidade e a importância de se realizar novos estudos sobre o tema no país.

Palavras-chave: qualidade do ar interno, hospitais, projeto e construção sustentável.


1. INTRODUÇÃO

O processo de projeto e de construção de edifícios tem mudado profundamente nas últimas décadas com a maior industrialização e necessidade de eficiência energética. As crises do setor de energia, cada vez mais presentes no mundo, têm acelerado o reconhecimento da importância de sua conservação para a sustentabilidade das atividades humanas atuais e futuras.

A evolução do homem, sobretudo após a Revolução Industrial, tem possibilitado um crescente controle sobre os ambientes internos, transformando e criando condições climáticas próprias, na busca de seu bem-estar e conforto. Com o reconhecimento da importância da conservação de energia, conseqüente da crise energética mundial de meados da década de 70, novas técnicas de construção têm tornado os edifícios cada vez mais impermeáveis ao ar. A utilização de materiais isolantes que minimizam a perda de energia através de seus fechamentos tem reduzido as trocas de ar interno e externo para, assim, diminuir o consumo de energia (HEALTH CANADA, 2005; HOSKINS, 2003).

Ao mesmo tempo a industrialização ampliou o uso de materiais sintéticos e produtos químicos nas construções que, juntamente com as características de fechamentos herméticos e pouca ventilação, têm resultado em elevadas concentrações de poluentes internos. Embora as novas tecnologias construtivas sejam mais duráveis, resistentes à água e energeticamente eficientes, observa-se uma redução de mecanismos que dissipem tais poluentes quando comparados com antigas construções (CRAIG et al., 2003; HEALTH CANADA, 2005).

Estudos indicam uma relação direta entre determinadas concentrações de poluentes do ar interno com problemas de saúde, tais como: alergias, asma, bronquites, pneumonias, câncer de pulmão e outros (DELOACH, 2004; GRAIG et al., 2003; HEALTH CANADA, 2005; HOSKINS, 2003). Esse problema é apontado como um dos principais fatores contribuintes para a chamada “síndrome do edifício doente” e que somada a outras razões, como os altos custos do sistema de saúde e a baixa produtividade no trabalho, vem impulsionando discussões e melhorias em relação à qualidade do ar interno.


2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

“First, do no harm” tem sido o lema dos profissionais de saúde desde Hipócrates, mas que, segundo alguns autores (SOLOMON, 2004; DELOACH, 2004), parece não estar sendo amplamente seguido nos últimos tempos. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, a incineração de resíduos médico-hospitalares foi classificada pela US Environmental Protection Agency (EPA) como a quarta maior fonte de emissão de neurotoxina de mercúrio, altamente prejudicial à saúde, além de estar entre os principais produtores de dioxinas carcinogênicas (DELOACH, 2004).

Ao mesmo tempo em que profissionais de saúde tratam e cuidam de pessoas doentes, alguns dos produtos, sistemas ou estruturas utilizados durante esses procedimentos podem estar comprometendo a saúde dos próprios pacientes, da equipe de trabalho ou da comunidade como um todo. Esta situação é um tanto contraditória para estabelecimentos provedores de saúde, por estarem contribuindo para o mesmo mal que mais tarde terão que curar.

Segundo Saad (2003), os ambientes hospitalares incluem uma ampla variedade de elementos indesejáveis, tais como misturas de poluentes químicos, contaminantes biológicos, além do alto nível de estresse físico e mental pelo qual passam seus usuários. Neles, apesar do constante controle, os riscos de infecção são maiores e se agravam quando da execução de obras ou pela entrada de poluentes externos, especialmente pelo fato dos hospitais estarem quase sempre localizados em áreas urbanas e sofrerem a influência de elevados índices de poluição. Com a necessidade de expansão dos hospitais em áreas densamente povoadas, é comum a conversão de áreas verdes e jardins em novas construções ou estacionamentos para veículos, levando à diminuição de barreiras naturais contra poluentes que ajudavam a proteger a qualidade do ambiente.

A baixa qualidade do ar interno em edificações hospitalares pode afetar diretamente a saúde de seus usuários, sobretudo a de pacientes, que já se encontram com seu sistema imunológico deprimido, portanto, mais susceptíveis às influências externas. Outro agravante é que as pessoas que permanecem por mais tempo em ambientes, ou seja, mais expostas aos poluentes do ar interno, são aquelas que freqüentemente mais sofrem os seus efeitos, como os idosos e os doentes crônicos (HEALTH CANADA, 2005).

Assim, a conscientização sobre o que acontece não apenas dentro dos ambientes, mas também de como os hospitais podem prejudicar a saúde do homem, criou nos últimos cinco anos um novo entendimento sobre o papel desses estabelecimentos nos Estados Unidos (DELOACH, 2004). Projeto de “edifícios verdes”, materiais sem mercúrio e produtos de limpeza “ecologicamente corretos”, são algumas das iniciativas adotadas pelos hospitais americanos na busca por meios mais seguros de funcionamento.

No Brasil, porém, a grande maioria dos hospitais se encontra em fase bastante atrasada, ainda na implementação de processos certificatórios, como a Acreditação Hospitalar1, por exemplo, ao passo que estes já são assuntos de domínio nas instituições de saúde americanas e de países mais desenvolvidos. Em relação aos aspectos de sustentabilidade do projeto e da construção, ou mais especificamente, da qualidade do ar interno, muito pouco parece existir de estruturado no setor hospitalar brasileiro. O que ocorre mais são intenções pontuais, independentes, impulsionadas principalmente por necessidades de ordem financeira e/ou legislativa, sendo raras as conscientemente planejadas dentro de uma preocupação ambiental conjunta.

Entretanto, Antle (apud SOLOMON, 2004) afirma que mesmo nos Estados Unidos os hospitais ainda se encontram relativamente distantes do ideal quando o assunto é projeto de construções sustentáveis, por diversos motivos, a citar:


a) o tamanho da pegada ecológica a ser “encarada” pelas instituições hospitalares;

b) o custo das decisões, uma vez que há grande competição pelos poucos recursos financeiros, além do que a vontade do médico normalmente prevalece , tornando as iniciativas “verdes” vulneráveis;

c) os estabelecimentos de saúde são altamente regulados por legislação, o que leva administradores e projetistas a temerem por mais burocracia em um setor que já é delimitado por diversos requisitos;

d) a primeira versão do mais popular sistema de avaliação ambiental americano, o Leadership in Energy & Environmental Design (LEEDTM), ser focado para a construção comercial, e não para estabelecimentos de saúde, uma vez que os hospitais se diferem profundamente dos demais edifícios pois: funcionam 24 horas por dia, 7 dias por semana; requerem plantas compactas pela necessidade de múltiplos espaços contíguos; comportam procedimentos que não aceitam luz natural; têm que acomodar grandes equipamentos e em grande quantidade; necessitam de trocas de ar mais freqüentes e procedimentos de limpeza mais rigorosos para controlar a infecção hospitalar.

No Brasil, uma das poucas regulamentações existentes sobre o assunto é a Resolução RE no 9/ 2003, da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que estabelece padrões referenciais de qualidade do ar interior, porém direcionados para ambientes climatizados artificialmente de uso público e coletivo. Mesmo assim, a Orientação Técnica (BRASIL, 2003) recomenda, para fins de pesquisa e com o propósito de levantar dados sobre a realidade brasileira, algumas fontes poluentes de maior ocorrência nos ambientes internos – de agentes biológicos e químicos – e suas principais medidas de correção, e que pode ser considerada como ponto de partida para a discussão da qualidade do ar interno no país.


POLUENTES BIOLÓGICOS

As edificações geralmente abrigam uma variedade de agentes biológicos, considerados poluentes aéreos ou de superfície, incluindo microorganismos como bactérias e fungos, com seus esporos e toxinas; além de enzimas, vírus, plantas e animais (protozoários, insetos, aracnídeos, roedores e animais de estimação). Tais agentes representam fontes potenciais em induzir ou agravar alergias e outras doenças (FRANKE et al., 1997).

A proliferação de mofo, um fungo microscópico, é apontada como uma das principais causas de contaminação biológica do ar interno, devido aos esporos que libera durante seu crescimento.

Dentre as condições propícias ao seu desenvolvimento, está a elevada umidade relativa do ar que pode ocorrer devido à infiltração de água pelos materiais de vedação, vazamentos e outros.

A deterioração de materiais de construção, como o apodrecimento da madeira e a corrosão de metais, também pode levar ao crescimento de mofo, cujas estratégias de prevenção devem ser abordadas em projeto (CRAIG et al., 2003).

No caso de países tropicais, a exemplo do Brasil, Saad (2003) chama a atenção para o aumento das fontes de contaminação em geral, impulsionadas pela deteriorização ambiental, tanto nas áreas urbanas quanto nas rurais. Essa situação é resultado da morosidade na implantação de sistemas sanitários, como água e esgoto, que não atendem à demanda crescente da população e que só irão piorar com o aumento da temperatura frente às alterações climáticas mundiais.

No caso de hospitais, outras fontes biológicas são as gotículas de ar com contaminação viral e bacteriana proveniente de pacientes e profissionais da equipe que por ventura sejam vetores ou que estejam também infectados devido a gripes ou outras doenças respiratórias. Saad (2003) enfatiza que o impacto ambiental dessas fontes se multiplica com a superlotação comumente encontrada em hospitais de países tropicais e subdesenvolvidos.

Os sistemas de aquecimento, ventilação e condicionamento do ar, amplamente utilizados em edifícios hospitalares, também podem se tornar fontes de poluição do ar, sobretudo quando não são corretamente ou freqüentemente limpos e conservados. Em centros cirúrgicos, por exemplo, ao invés do ar insuflado promover maior assepsia do ambiente, ele pode re-emitir partículas contaminadas pela manutenção incorreta dos filtros (HOSKINS,2003).


POLUENTES QUÍMICOS

Vários são os poluentes químicos existentes em ambientes internos que podem causar desde reações agudas, quando relacionadas a acidentes casuais ou de curto tempo de exposição, até reações crônicas, quando há exposições prolongadas a baixas concentrações de químicos. Tais substâncias são chamadas de “voláteis”, quando são encontradas no ar, podendo não ter cheiro e, portanto, de difícil percepção (CRAIG et al., 2003).

Segundo Hoskins (2003), uma das maiores causas de poluição interna é a combustão, quando ocorre a emissão de diversos poluentes, incluindo partículas respiráveis e compostos orgânicos voláteis (volatile organic compounds – VOCs), como formaldeído e benzena. Altas concentrações de VOCs podem ser neurotóxicas e carcinogênicas, enquanto que em baixas concentrações, podem causar irritação dos olhos, dores de cabeça e desconforto geral (FRANKE et al., 1997).

Dentre os poluentes químicos gerados pela combustão, o mais conhecido e estudado é a fumaça de tabaco, que demonstra como os ocupantes do edifício influenciam a qualidade do ar interno através de seus hábitos e atividades. Uma pesquisa realizada sobre a percepção da qualidade do ar em escolas na Suécia constatou que os indivíduos expostos à fumaça de tabaco em casa ou que tinham animais de estimação estavam mais satisfeitos com a qualidade do ar dos ambientes escolares em relação aos demais entrevistados (SMEDJE et al., 1997).

As fontes de emissão de VOCs são bastante diversas, incluindo: materiais de construção, como tintas e adesivos para carpetes; mobiliário; e produtos de uso dos consumidores, tais como hair sprays, máquinas copiadoras e produtos de limpeza. Muitos químicos são utilizados na fabricação de materiais de construção e móveis que são emitidos para o ambiente por longo período de tempo, porém essa emissão é maior no início e vai enfraquecendo com o tempo (CRAIG et al., 2003).

Outro fator que pode contribuir é a utilização de materiais porosos como carpetes, isolantes acústicos e tecidos, que conseguem agir como reservatórios de poluentes químicos, uma vez que os absorvem do ar e os liberam após longo período de tempo (CRAIG et al., 2003). Apesar dos materiais porosos não serem normalmente utilizados em hospitais, pela dificuladade de limpeza, todas as demais fontes de contaminação química anteriormente descritas são corriqueiras em ambientes de saúde, além de outras fontes características do setor de saúde.

No caso da contaminação causada por solventes, pinturas e outros tipos de materiais de construção, a preocupação com os hospitais é ainda maior uma vez que são edifícios constantemente reformados e ampliados, sobretudo em função da contínua necessidade de adaptação a novas tecnologias e descobertas da Medicina. Vale relembrar que grande parte dessas instituições não podem parar o seu funcionamento em virtude de obras civis, com as quais pacientes e profissionais acabam convivêndo.

Outra fonte de contaminação química presente nos ambientes hospitalares são os inseticidas, excessivamente usados no controle de pestes e insetos, que podem causar doenças e servir de vetores para a transmissão de males à saúde (SAAD, 2003).

Além disso, uma importante fonte de poluição química do ar específica dos estabelecimentos hospitalares é a utilização de gases anestésicos que podem trazer implicações para cirurgiões e enfermeiros, constantemente expostos aos mesmos (SAAD, 2003). Os efeitos podem ser acumulativos e tóxicos para o fígado e para o sistema nervoso central, e ainda mais prejudiciais para os profissionais do sexo feminino, pela possibilidade de aborto e perda de fertilidade (SAAD, 2003). Isto acontece porque inevitavelmente alguma fração dos gases é respirada pela equipe, cuja quantidade depende do método de narcósia, do tempo de duração e das condições do equipamento utilizado para a anestesia e do mecanismo de ventilação ambiental – sistemas de ar condicionado usando fluxo laminar vertical, ao invés do horizontal, sem recirculação do ar interno (DOBROVOLKSY, 2003).

As questões relacionadas com a qualidade do ar interno das salas de cirurgia são um tanto complicadas, pois a poluição não consiste apenas da emissão dos gases anestésicos mas também de propelentes de diferentes sprays, vapores de agentes de limpeza e da escovação cirúrgica, e de possíveis outros compostos voláteis (DOBROVOLKSY, 2003). Nesse sentido, Dobrovolksy (2003) afirma que novos estudos devem ser realizados com o intuito de melhor esclarecer os efeitos causados pela exposição e inalação de gases em ambientes cirúrgicos.


3. ESTUDO DE CASO

3.1. Metodologia

Com o intuito de melhor esclarecer como a questão da qualidade do ar interno é vista pelos hospitais brasileiros, apesar da limitação da pesquisa, foi realizado um estudo de caso em um Hospital Universitário no país, de aproximadamente 290 leitos. Considerado um centro de referência regional para o Sistema Único de Saúde (SUS), a instituição presta serviços de assistência em praticamente todas as especialidades, além de atuar na formação de recursos humanos, pesquisa e desenvolvimento, e na cooperação técnica e científica com a rede de serviços. São atendidos pacientes do SUS de cerca de 250 municípios da região onde está localizado e mais 100 municípios de outros estados, demonstrando o importante papel que tem para o sistema de saúde local e regional.

Para a elaboração desse estudo, nos dias 28 de novembro e 2 de dezembro de 2005 foram entrevistados: a enfermeira-chefe da Gerência de Risco Hospitalar; a técnica de enfermagem e a médica da CCIH (Comissão de Controle de Infecção Hospitalar); o técnico administrativo da Divisão de Serviços Gerais, responsável pelas áreas verdes do prédio; e o técnico de manutenção de equipamentos de refrigeração do Setor de Manutenção; estando a maioria a 15 anos trabalhando naquele hospital. As perguntas das entrevistas foram formuladas com base nos tópicos abordados anteriormente e no guia “A Worker’s Guide to Air Quality in Offices, Schools, and Hospitals”, publicado pelo Health Canada (2005). Além disso, foram feitas visitas de observação e levantamento fotográfico em parte das instalações do referido hospital nesses mesmos dias.

3.2. Resultados e Discussão

De modo geral, observou-se que o edifício do referido Hospital Universitário tem se tornado cada vez mais “fechado”, ou seja, com menos trocas de ar entre o meio externo e o interno, devido ao
aumento do uso de equipamentos de ar condicionado (em 15 anos passou de 75 para 400 o número de aparelhos de janela), seja por motivo de conforto, pela necessidade de funcionamento de novos equipamentos médico-hospitalares ou pela maior exigência da legislação de saúde.

Dos cinco entrevistados, apenas um afirmou que houve redução das áreas verdes, devido à construção de novos prédios e pelo futuro projeto de alargamento de uma avenida, que irá avançar sobre uma área de eucaliptos existente na entrada do hospital. Entretanto, todos os demais disseram ter percebido um relativo aumento de vegetação sobretudo no estacionamento.

Foi possível observar em fotos antigas da instituição que as mudanças referentes às áreas verdes ocorreram desde a instalação do hospital em um antigo sanatório, em 1975, que, pelo próprio conceito da época, era um tanto isolado da cidade. Já em fotos mais recentes constata-se o crescimento urbano do entorno e a melhoria da arborização do estacionamento. Mesmo após três décadas de permanência na edificação atual, pode-se obervar que a qualidade do ar na região ainda é beneficiada pela existência de vegetação preservada no fundo de vale, localizado atrás do estabelecimento.

Em relação à influência da poluição externa na qualidade do ar do Hospital Universitário, nada de significativo foi constato pelos entrevistados e nem há relato de reclamações por parte de pacientes, funcionários e profissionais de saúde. Apenas um dos entrevistados mencionou o forte cheiro de esgoto que exala de muitos sanitários, talvez pela falta de ventilação, e que está relacionado ao ambiente interno da instituição.

Nesse sentido, foi unânime considerar a superlotação como um fato constante e preocupante do hospital, uma vez que, segundo a CCIH, há estudos que demostram a relação direta entre esse problema e o aumento de infecções. Apesar da superlotação ocorrer em quase todos as unidades de assitência da instituição, a situação é mais crítica no Pronto Atendimento, onde a falta de ventilação na sala de espera, sobretudo quando chove e torna o ar mais abafado e úmido, e a demora no atendimento podem levar a casos extremos de se ter pacientes com tuberculose ou meningite, por exemplo, esperando junto com outras pessoas em ambientes fechados e mal ventilados. A dificuldade de se isolar pacientes com doenças transmissíveis, devido à falta de espaço e local apropriado, também foi destacada na UTI Neonatal, problemas estes que deverão ser solucionados com obras futuras.

Todos os entrevistados afimaram que as instalações do hospital estão em constante reforma ou ampliação, e que a execução das obras, apesar de ser normalmente um transtorno pela necessidade de transferir pacientes e isolar áreas, não chega a gerar reclamações quanto à qualidade do ar interno. Mesmo assim, um dos entrevistados afirmou haver pesquisas sobre o aumento de infecções, principalmente causadas por fungos, quando da execução de obras, especialmente em pacientes imuno-deprimidos e transplantados.

O problema da contaminação biológica através de mofo não pareceu ser tão preocupante como apresentado nos hospitias de países mais frios, onde os casos detectados no hospital em questão estavam relacionados à pintura, especialmente nos edifícios mais antigos e em superfícies externas. A proliferação de fungos em função de vazamentos é pequena, pois, segundo os entrevistados, são logo consertados, assim como as infiltrações, que ocorrem com maior freqüência na conexão de edificações antigas às novas. Já a deterioração dos materiais de acabamento é bastante visível, resultado da maior necessidade de higienização dos ambientes de saúde e dos fortes produtos utilizados, a exemplo do ar condicionado da Câmara Escura que não dura mais do que um ano pela degradação provocada pelos químicos (revelador e fixador) usados no processamento das chapas.

O serviço de manutenção de aparelhos de ar condicionado do hospital segue uma rotina semanal de limpeza dos filtros para as unidades críticas como Centro Cirúrgico e UTIs. Pode-se observar na foto do pré-filtro do sistema de climatização do Centro Cirúrgico (Figura 01) como há sujeira e resíduos no ar e que são captados pelos mesmos em apenas uma semana. No caso dos filtros absolutos das salas de cirurgia, dada a alta capacidade de retenção de microorganismos nessas malhas, a troca dos mesmos só é feita por uma empresa terceirizada e especializada para tal função. Já nos demais aparelhos de parede de áreas não críticas, devido à escassez de mão-de-obra, a limpeza dos filtros só é feita quando o equipamento quebra e vai para a manutenção, ou seja, em estado crítico.

O controle de vetores como insetos, roedores e outros também é executado por empresas terceirizadas em unidades críticas como o Centro Cirúrgico, UTIs e Pediatria. Já nas demais áreas, a aplicação de inseticidas e outros produtos químicos é periódica e executada pelo próprio pessoal dos Serviços Gerais, com a constante preocupação em se utilizar produtos que sejam inodoros e tenham registro no Ministério da Saúde. Os entrevistados afirmaram não perceber ou sentir os efeitos causados pela aplicação desses químicos, com exceção de uma vez, na antiga UTI de Adultos, quando o forte cheiro do inseticida teve que ser retirado com o uso de ventiladores, uma vez que as janelas eram fixas e só o ar condicionado não era suficiente.

Diferentemente dos vetores citados nas referências estrangeiras apresentadas, no caso do referido hospital os entrevistados destacaram como maior dificuldade de controle as formigas e as pombas.

As primeiras são atraídas principalmente pelas gotas de soro glicosado que caem no chão, enquanto que as outras pela facilidade de montar seus ninhos junto aos aparelhos de ar condicionado de parede. Tempos atrás, foi constatado no hospital um surto de pneumonia atípica em pacientes, funcionários e médicos causado pela presença das pombas.

Outro questionamento feito aos entrevistados foi quanto às unidades que compreendem atividades que lidam com a combustão, das quais foram listadas o fogão da cozinha (que tem exaustor) e os bicos de Bunsen do laboratório (que tem ar condicionado de parede). A antiga caldeira também foi citada pela emissão de fuligem que era encontrada por todo o prédio. Entretanto, a contaminação do ar pela combustão mais comum e que abrange todo o hospital seja talvez a proveniente do tabagismo. Foi quase unânime a resposta de que, mesmo sendo proibido fumar dentro do prédio e havendo locais específicos para tanto, a maioria das pessoas não o respeitam.

Para finalizar, foi perguntado se havia na instituição algum programa de identificação e eliminação de produtos químicos perigosos ou substâncias tóxicas, como o mercúrio. Apesar de não haver nada implantado ou em elaboração, o setor que mais se aproxima desse tipo de atuação é a Gerência de Risco Hospitalar, pelo fato de monitorar a qualidade e o perfil de segurança de produtos de saúde através da Farmacovigilância, Hemovigilância e Tecnovigilância. A substituição do hipoclorito usado na limpeza de sanitários por outro produto menos agressivo demonstra que a atuação dessa gerência pode vir a se preocupar com as demais questões que influenciam a qualidade do ar interno.


4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A questão da qualidade do ar interno demonstra ser um assunto bastante complexo pelo seu caráter multidisciplinar, cuja discussão envolve profissionais das mais diversas áreas do conhecimento, tais como: medicina, ecologia, engenharia, arquitetura, química, etc. Além disso, a
percepção quanto a sua “qualidade” é muito relativa dada a sensibilidade de cada indivíduo, podendo exercer as mais diversas influências dependendo das características pessoais. Soma-se ainda, o fato de se tratar do estudo de um elemento que não se vê, às vezes não tem cheiro e nem se sente.

Em relação aos ambientes hospitalares, a discussão sobre a influência das questões ambientais no tratamento e segurança de pacientes, bem como para o bom desempenho dos profissionais de saúde e funcionários, parece mais adiantada em países desenvolvidos quando comparada com os hospitais no Brasil.

Na verdade, o que se observa é que as instituições hospitalares brasileiras, de um modo geral, ainda estão buscando melhorar condições básicas de funcionamento e segurança; onde o que é colocado como pré-requisito nos sistemas de avaliação ambiental em países desenvolvidos, no Brasil, ainda é objetivo a ser conquistado.

Mesmo quando se extrapola para as demais tipologias de ambiente construído, o assunto ainda é um tanto “tímido”. Entretanto, dentre todos os temas que abrangem a questão do projeto e da construção sustentável, a qualidade do ar interno se coloca como uma das principais preocupações brasileiras, visto que uma pesquisa realizada junto a representantes da construção civil no Estado de São Paulo (SILVA, 2003) classificou em 2º lugar de relevância, para um módulo de avaliação ambiental, o “impacto dos materiais de construção na saúde humana”.

Nesse sentido, apesar da limitação da pesquisa e do estudo de caso não ter apresentado uma preocupação significativa quanto à qualidade do ar interno, como a implementação de um programa abrangente, a discussão mostra uma certa tendência de evolução nessa direção, com a possibilidade de novos estudos de caso, para que seja conhecida a realidade dos hospitais, bem como de outras tipologias de edifícios, no que se refere às questões de sustentabilidade no país.


5. AGRADECIMENTOS

Ao Programa da Pós-Graduação da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em especial à Profa. Dra. Vanessa Gomes da Silva, docente da disciplina de Projeto e Construção Sustentável (IC-054).


REFERÊNCIAS

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DELOACH, C. Healthcare is going green: saving dollars and making sense. Business Briefings: Hospital Engineering & Facilities Management: publication of the International Federation of Hospital Engineering, London, p 84-88, Jan. 2004.

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SAAD, S. G. Integrated environmental management for hospitals. Indoor and Built Environment. London, v. 12, n. 1-2, p. 93-98, Feb. 2003.

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Créditos: Flex Editora

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