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Bioreinicialização

10/11/09 - 05:15 | Atualizado em 10/11/09 - 05:15 Aparato ecosófico e máquinas esquizóides

“...em jogos de poder, [aparatos poderiam ser considerados] estratégias de relacionamento apoiando tipos de conhecimento e apoiadas por si mesmas.” (Michel Foucault, “Dits et Ecrits”)


As máquinas estão sempre fingindo fazer mais do que elas foram programadas para fazer. É da sua natureza. Seu comportamento alterna fantasmas, frustrações e medos inspirados por sua própria habilidade para libertar-se e nos ameaçar (como o Golem fez com seu próprio criador, o rabi Loeb). A indistinção entre o que se espera deles, como criaturas domesticadas e perfeitamente alienadas, e a psicologia antropomórfica intencionalmente projetada sobre eles, cria um espectro de potencialidade, igualmente interpretativo e produtivo, o qual está apto a re- contextualizar os processos de operação do campo arquitetural. As máquinas são um vetor de narração, geradores de rumor, e ao mesmo tempo diretamente operacionais, com uma eficiência de produção acurada.

Estas desordens múltiplas, este tipo de esquizofrenia, podem se consideradas uma ferramenta de reabertura de processos e subjetividades, para re-protocolizar indeterminação e incertezas. Desta forma, elas tornam-se agentes de lógica obscura, de lógica reativa e re-programável. Como em “Alice no País das Maravilhas”, onde Lewis Carroll usou matemática para confundir a percepção da garotinha, tais aparatos, incluindo “máquina solteiras” (no sentido de Marcel Duchamp e Picabia) estendem uma linha de subjetivação para organizar “repetições e anomalias” (no sentido de “Diferença e Repetição”, Gilles Deleuze, 1968) usando e desenvolvendo paradoxos que são capazes de re- complexificar e de-alinear as bordas do sistema verdadeiro, a fim de reinverter a “lógica de significado” e transformá-la num ponto sem importância...

Parece fazer sentido estratégico avaliar o grau de arquitetura da realidade com base em sua habilidade para contar historias e desta forma aumentar fisicamente sua dimensão. De certa forma, deveríamos considerar a estrutura em si como um fragmento de um cenário, um MacGuffin, o ponto no e do qual discursos, estratégias, protocolos científicos e jogos de poder articulam histórias e agendas. Mal- entendidos,neste sentido,produzem artefatos – no “jardim que não toma direção alguma” – e aparatos podem ser considerados geradores de ambigüidades e conhecimento onde protocolos não-delineadores, protocolos de emergências, contingentemente revelem as condições de emissão e são revelados por elas, numa estratégia Situacionista (como referida em “La société du spectacle”, Guy Debord, 1967, e “Declaration d’Amsterdam”, Constant e Guy Debord, 1958).

Os sete BI[r]O-BO[o]Ts deveriam ser considerados um espectro preliminar, de um urbanismo especulativo auto-organizado (“já ouvi falar”) a um experimento fisiológico digestivo (“o jardim dos prazeres terrenos”). Dentro destas finalidades estão uma máquina estocástica com uma incompletude previsível (“Olsweg”), uma fresa industrial para transações antroposóficas (“fluxo d’água”), “Janelas Traseiras” hitchcockianas hidropônicas (“estou perdido emParis”), uma máquina em pé, como uma evolução darwinista de uma casa de André Bloc em sua extensão (“vassoura bruxa”) e por último mas não menos importante, um bio-robô híbrido pura quimera – o fantasma mecânico de uma floresta selvagem onde a guerra fria degrada a natureza (“elemeacertou”).
Suas agendas esquizóide-maquinistas são igualmente produtos e vetores de paranóia (em ambos os sentidos, “paranóia crítica” e paranóia patológica).

Um passeio pelo mundo fisio- psicólogico de R&Sien(n)

De “Aqualta2.0”, o bar veneziano em 2000 onde as pessoas podiam beber a laguna suja, através de uma máquina de purificação, para testar o grau de seus próprios medos, incluindo a dúvida da confiabilidade do mecanismo de limpeza; para “Dustyrelief ”, o museu de Bangkok onde a poluição da cidade, o monóxido de carbono, é atraída, coletada para tornar-se a pele inteira do monstro cinza e peludo, para reciclar as substâncias incluindo um pós-efeito de drenagem para criar a extensão vindo diretamente das substâncias e partículas produzidas “pela” cidade; ao “engarrafamento de mosquitos” onde os habitantes têm que negociar com a paranóia dos mosquitos, ambos presos na casa garrafa de Klein, com o som da morte do inseto como um biótipo não inofensivo (os mosquitos estão carregando nesta região o Vírus Nil); para “Olzweg”, um labirinto inalcançável para o FRAC Orleans, o principal museu de arquitetura radical, onde os visitantes podem perder-se e descobrir um sistema de trajetórias heterotopiano não panóptico, usando PDA sobre RFID para obter de volta sua própria posição em XYZ desenvolvendo estratégias para mover-se novamente; ao “jardim dos prazeres temerários”, uma estufa na Croácia, incluindo um jardim tóxico, protegido contra o perigo atrás de uma área restrita, mas capaz de ser saboreado e testado através de um processo de destilação, somente por desejo voluntário, num modo semelhante aos efeitos fisiológicos e psicológicos “Fugu”; ao “Mipi”, um Bar PI no templo da ciência cognitiva, o MIT-Cambridge, como uma extensão do Media Lab, para experimentar através de um bar de urinoterapia a imunoterapia da produção individual, incluindo um balanço esquizóide entre efeito nojento e saudável; para“górgona verde”,uma construção fasmídio, envolta por uma floresta, a qual alimenta a confusão entre natureza artificial e domesticada na qual todas as fachadas tornam-se o pântano úmido reciclando parte da água suja inerte; para “elemeacertou”, a pura história narrativa vinda de uma terra de ninguém perdida, a casa da bruxa, entre as duas Coreias, jogando de novo e de novo o jogo da guerra fria; onde a balística tornou-se uma ferramenta para um planejamento maior, e onde algumas novas espécies de natureza reapareceram desde o abandono da área DMZ (Zona Desmilitarizada) à natureza selvagem, 50 anos atrás, uma máquina verde mecânica está coletando a natureza selvagem indomada e podre para criar a insulação da casa da bruxa através do efeito de aquecimento vindo das folhas em decomposição.

O efeito biológico não é apenas um releitura de transferências fisiológicas, é também um subjetivação narrativa introduzindo um tipo de relacionamento heterotopiano com o corpo, como o “corpo sem órgão”, um “CsO” (corps sans organ) no sentido de Antonin Artaud e Deleuze. È um tipo de aparato com substâncias articulares e intensidades, escorregando sobre superfícies, infiltrando a carne e infiltrado pela carne, numa infinidade de possibilidades e interpretação. Este “CsO” é gerado diretamente da situação, por uma produção que está embutida no corpo da situação, como um enxerto, compartilhando vísceras, viscosidade de fluxo sem uma identidade clara entre suas próprias emergências, sua própria individualidade, e a situação em si.

Uma outra direção de desenvolvimento biológico está ligada à possibilidade de desenvolver uma forma, um habitat com entradas vindas diretamente da fisiologia do corpo do próprio habitante, No experimento “jáouvifalar”, premiado pela Feidad, uma máquina, o “VIAB”, torna-se um vetor de um processo de não-obtenção, do sistema auto- organizativo, onde o grau de cortisol (strtess) relido por nanotecnologias torna-se uma substância do protocolo social, onde as multidões, no sentido de Tony Negri, estão desenvolvendo sua própria secreção de inteligência de enxame que é a forma da cidade.

Neste experimento urbano, incluindo computação, paramétrica, robótica e fisiologia, nós tentamos fazer visível as contradições dos impulsos, das entradas; ao mesmo tempo aquelas cujo espaço público cruzado pela capacidade de emitir uma escolha, transmitida pela linguagem, sendo articulada na superfície das coisas, como um desejo do livre arbítrio, “le libre arbitre”, e aquelas preliminarmente e mais preocupantes podem ser, mas com certeza, prováveis de prestar contas do corpo como uma máquina- desejável como um corpo sem cabeça para integrar a química neurobiológica; dopamina, cortisol, melatonina, adrenalina e outras substâncias secretadas pelo organismo, imperceptivelmente produzidas antes com a consciência que elas geraram, como a animalidade humana pré-psicopática.

O “VIAB”, a máquina robótica construtiva é igualmente, um Solteirão, e no sentido de Marcel Duchamp, narrativa e subjetiva, e também uma produtiva como um guindaste vivendo nas vísceras do edifício. Ele tece a emanação destas duas entradas e produz a face dos desejos (visíveis ou não visíveis) como uma fonte de esquizofrenia, entre o espectro do mundo emitido na esfera publica e que se relaciona com a química do corpo. Nós tentamos desta forma rearticular a hipótese de Rudovsky (arquitetura sem arquiteto), com um processo paramétrico esquizóide, dirigido pelas duas entradas contraditórias, uma sendo da linguagem na superfície do relacionamento social, a outra da releitura da secreção química humana. Este experimento urbano, mostrado em 2005 no MAM, Paris, será reativado em abril de 2009, no Le Laboratoire-Paris. Serão incluídos robôs produzindo protótipos em escala única seguindo dados ordinários, mas corrompidos durante a fase de construção por ânimos e humores da futura vizinhança. A lógica do robô encarregado da construção estocástica é empurrada e puxada por estas duas vibrações, como um conflito esquizóide, introduzindo pela tecnologia performativa, um processo não-linear esquizofrênico. A profanação, a dessacralização da dimensão positivista destas tecnologias tornou-se uma hipótese de reapropriação humana.


Digressão

Nanorreceptores ,s.– Nanopartículas (NP) usadas para capturar e detectar a presença de uma substância química numa atmosfera particular. Nanorreceptores pode ser inalados, tornando possível “farejar” o estado químico do corpo humano. Funcionamento: Como polens, eles são concentrados nos brônquios e fixam-se nos vasos sangüíneos. Esta localização torna possível detectar traços de hormônios de stress (hidrocortisona) carregado pela hemoglobina.

Inteligência de enxame, s. – Termo designando uma forma de comportamento caracterizada pela ausência de controle central ou arquitetura geral. Com base em regras simples para o comportamento individual, a inteligência de enxame torna possível, por exemplo, entender e estimular fenômenos nuvem, isto é, o comportamento de grupos de indivíduos em movimento que são reativos a obstáculos e evitam todas as colisões. Por conseguinte,extensivo à sociedade humana que adota a bioestrutura como um protocolo social.

Viab, s. (Contração de variabilidade- viabilidade) – Uma máquina de construção reativa e autônoma empregando secreção. Desenvolvida para a primeira bioestrutura em 2005, o Viab lança um algoritmo que permite construir estruturas arquiteturais baseadas nos princípios de indeterminação. Seu programa fonte aberto torna-o permeável a entradas externas. Seu roteiro básico define
protocolos para ação, movimento e todos os tipos de restrições, mas também integra inteiramente variáveis ambientais que possam afetar sua função primária.


Epílogo

Algoritmos e matemática tem seu papel no design, mas pensar que a matemática pode realmente descrever ou codificar nosso mundo é um engano ou, melhor dizendo, uma ilusão. Erwin Panofsky descreveu perfeitamente o grau de simbolismo na geometria usada por Galileu e Kepler. O primeiro, da renascença, projetou o movimento dos planetas como círculos; o segundo, do maneirismo, integrou subjetivamente a hipótese elíptica. A releitura da ciência no campo da arquitetura é sempre guiada tanto por ideologias quanto por ingenuidade. Não esqueça a opinião de Marcel Duchamp sobre música e teorias de correspondência com software Upic de Xenakis para desenvolver o pavilhão da feira mundial de 1958. Com o tipo de provocação e polêmica M. D. argumenta: “...nesta produção, elas estão emparelhadas, no mesmo nível de garotinhas matemáticas...”.

Nosso trabalho está claramente neste equilíbrio, neste desequilíbrio, distante do positivismo articulado pela ciência. E suspeito da geometria na arquitetura quando se trata de uma propaganda de controle, quando traz consigo novamente um mestre do poder, 15 seguindo os passos de“Santa Maria Del Fiori”,
de Brunelleschi. Não é por acaso que Alan Turing e Lewis Carroll eram matemáticos, o primeiro suicidando-se como Branca de Neve, o segundo descrevendo como a esquizo- paranóia de Alice é capaz de confundir sua própria realidade à construção tangível de um universo paralelo.

Créditos: Flex Editora