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Aparência também gera credibilidade

23/11/09 - 03:07 | Atualizado em 23/11/09 - 03:07 Empresas de Advocacia investem em seus escritórios para gerar conforto e fidelizar clientes

Para as pessoas físicas, procurar um advogado evoca imagens quase sempre parecidas: um prédio de escritórios ou imóvel térreo onde uma secretária lhe pede para aguardar; em seguida, o cliente é geralmente atendido por um profissional bem vestido num escritório onde a mesa é peça central do mobiliário, acompanhado de duas cadeiras para os visitantes. Livros, computadores e diplomas nas paredes são outros itens muito comuns de se encontrar. Para empresas, as pessoas jurídicas, a situação muda, mas não muito.Escritórios especializados na prestação de serviços de advocacia empresarial tendem a ser maiores, com um espaço maior e mais funcionários, mas, em geral, a lógica prevalece: secretária, funcionários e salas isoladas para os advogados que dão nome ao escritório e seus associados. O processo foi lento, mas muitas destas imagens padrão que surgem ao pensarmos em escritórios de advocacia deixarão de existir. O setor começa a experimentar as vantagens de investir em seu próprio espaço com o objetivo de manter e ampliar clientes, adequar novos processos, trazer conforto para associados e funcionários e ganhar agilidade e reconhecimento no mercado.

A advocacia, seja no Brasil ou em outros países,evoluiu muito ao longo das últimas décadas, mas atualmente passa por um momento de transformação sem precedentes. Inúmeras forças já impactam o cotidiano dos escritórios, algumas há mais de uma década, e várias outras se encontram em plena ebulição. Gostem ou não os envolvidos, o fato é que as mudanças agora ocorrem em ritmo acelerado e os escritórios devem acompanhá-las de perto.

A evolução tecnológica pode ser considerada uma das principais causas das transformações em curso, cada vez mais rápidas e intensas. “Hoje em dia, os clientes têm fácil acesso ao andamento processual pela internet e muitas vezes fazem pressão em seus advogados por uma comunicação mais ágil. Por outro lado, temos o advento do processo judicial eletrônico que, esperamos, irá acelerar as decisões jurídicas, tirando a “culpa” dos escritórios pela demora no andamento dos processos”, afirma o advogado Marco Antonio P. Gonçalves. A tecnologia também trouxe um dilema que ficou evidente no livro do polêmico professor inglês Richard Susskind, The end of lawyers? (em português, “O fim dos advogados?”). O autor provoca os advogados para que repensem a sua profissão hoje e no futuro, sobretudo em razão do desenvolvimento das novas tecnologias e da chegada ao mercado dos novos advogados, nascidos e criados nesta nova Era da Informação. Em resumo, Susskind sugere que os advogados se perguntem quais são as suas habilidades e talentos distintos que não podem ser substituídos por sistemas tecnológicos, por mão de obra barata amparada por tecnologia ou até mesmo pelo Google.

Se o advogado como profissional liberal ou escritório de advocacia não empenhar algum tempo e esforço em busca dos seus diferenciais, a concorrência, cada vez mais acirrada do que em qualquer outra época, se tornará cada vez mais assustadora. Também neste ponto a tecnologia tem sua contribuição. Escritórios geograficamente distantes e de portes distintos, seja no Brasil ou no exterior, podem concorrer entre si ou, é claro, trabalhar de forma cooperativa. Há também o fato de que o número de advogados no Brasil continua crescente, pois já são quase 600 mil, muitas vezes despreparados, em boa parte pelo excesso de faculdades que oferecem o curso de Direito pelo país, dificultando a escolha dos alunos pelas melhores instituições.


A busca de soluções

Se há excesso de profissionais e o avanço tecnológico facilitou processos para todos e contribuiu para mudanças nos escritórios de advocacia, a reação já está surgindo em forma de fusões e aquisições. Os motivos são variados, seja envolvendo escritórios maiores ou menores. Expansão geográfica, ampliação das áreas de atuação e aumento da carteira de clientes são algumas das justificativas. Para escritórios menores, uma fusão pode agregar competitividade para enfrentar concorrentes maiores ou até mesmo as bancas estrangeiras.
Boa parte da solução pode vir também da adoção da gestão profissional pelos escritórios de advocacia. O investimento em profissionais e processos administrativos modernos pode colaborar muito para este período de grandes mudanças, principalmente com relação às tecnologias da informação. Todo escritório moderno deve ter rede, computadores desktop, notebooks, smartphones, correio eletrônico, acesso banda larga à internet entre outros. Tudo isso é, sem dúvida alguma, muito importante, mas não se traduz em diferenciais competitivos. Acima de tudo, é preciso integrar todas as informações existentes sobre o escritório em sistemas tecnológicos, de modo a gerar inteligência para uma melhor tomada de decisão e gestão do negócio (leia-se arquivos de processos,por exemplo). Esse é um dos melhores caminhos para desenvolver fortes diferenciais perante os concorrentes.


Números e tendências

Os números do mercado de advocacia do Brasil impressionam. Segundo os indicadores mais seguros, há no país quase 600 mil advogados e mais de 20 mil escritórios. Em número de advogados, o país só perde para os Estados Unidos, o paraíso do mundo litigioso e para a Índia, uma nação de mais 1 bilhão de pessoas. Além disso, o mercado jurídico brasileiro tem uma característica marcante: a pulverização. Aqui, a advocacia é praticada por milhares de pequenas firmas de dois ou três advogados. Mas as médias e grandes firmas estão crescendo. O gerenciamento de grandes volumes de ações, o assessoramento em fusões e aquisições e a formatação de negócios em infra-estrutura exigem o trabalho de dezenas de profissionais.

O anuário Análise Advocacia lista os 150 maiores escritórios brasileiros que, juntos, constituem uma força expressiva: empregam mais de 7 500 advogados, cerca de 1,5% do total de profissionais do Brasil, e respondem por uma parcela expressiva dos serviços jurídicos contratados no país. Vistos em bloco, os maiores escritórios patrocinam mais de 900 mil causas em diversas esferas. Muitas estão por trás das causas mais relevantes em discussão nos tribunais. Como grandes empresas, as principais sociedades de advogados são hoje geridas por administradores profissionais e possuem gerências financeiras, de informática e de recursos humanos. Oferecem a seus advogados planos de carreira bem definidos e programas de participação nos lucros e resultados. Muitos patrocinam cursos de mestrado e doutorado no Brasil e no exterior e enviam seus profissionais para cumprir estágios em grandes escritórios dos Estados Unidos e da Europa. O estudo também mostra que o cuidado com os processos de sucessão nas bancas também cresceu nos últimos anos. Muitos escritórios estão estabelecendo uma idade limite para a aposentadoria dos sócios como forma de abrir espaço para os mais jovens e reter os talentos. “Escritórios familiares, ou que dependem do prestígio de um grande nome, tendem a desaparecer”, sinaliza o anuário.

O tabu existente em torno da divulgação de dados como faturamento também começa a ser superado. Veirano Advogados, uma das maiores bancas do país em número de profissionais, divulgou recentemente um faturamento de 100 milhões de reais em 2005. Atualmente, o mercado jurídico está aquecido com serviços de assessoria a empresas brasileiras que desejam se internacionalizar ou abrir seu capital. Casos de sucesso na abertura de capital, como o da Natura, estimulam outras empresas a entrar nesse mercado. Além disso, a onda de fusões e aquisições ocorrida no fim dos anos 1990 gera agora um movimento inverso: mais procura por serviços de dissoluções de joint ventures, readequações contratuais, descumprimentos de acordos de acionistas e litígios entre sócios. Ao mesmo tempo, novas operações de fusão e aquisição estão em curso, segmento que se configura como um dos mais promissores e rentáveis para os escritórios.

No longo prazo, as PPPs (Parcerias Público-Privadas), área na qual o mercado jurídico aposta bastante, deve se tornar um grande filão, pois estas operações exigem a participação intensa de advogados, desde a elaboração dos primeiros esboços até a formação de consórcios para participar das licitações.Arbitragem e recuperação judicial de empresas são outros serviços jurídicos cuja demanda deve crescer consideravelmente nos próximos anos.

Uma olhada para trás também é importante. Até 1945 não existiam sociedades de advogados no Brasil e cada um era um nome com seu escritório particular. O advogado não tinha área específica de atuação, fazia de tudo. Fundadas nessa década, sociedades como Pinheiro Neto e Demarest & Almeida conseguiram aproveitar a onda de industrialização e de investimentos estrangeiros que surgiram com a abertura da economia na década de 1950. Se estruturaram à nova realidade, especializaram-se e se adaptaram às novas legislações e conseguiram se manter no topo do mercado jurídico brasileiro. Potências internacionais, como Linklaters e Baker & McKenzie, já fincaram os dois pés no Brasil por meio de associações com sociedades locais,movimento crescente para o futuro.

Em contrapartida, escritórios brasileiros abriram filiais ou firmaram parcerias com escritórios de outros países. Noronha Advogados, por exemplo, tem escritórios em Londres, Lisboa, Miami, Los Angeles, Xangai e Buenos Aires. Duarte Garcia, Caselli Guimarães e Terra possui sede em São Paulo e escritórios próprios em Brasília e Beijing, além de escritórios associados em Portugal, Angola, Estados Unidos (Flórida) e Buenos Aires, além de integrar a Terralex, rede composta por 178 escritórios de advocacia em 112 países (veja reportagem nesta edição). Castro Barros, Siqueira Castro e Xavier Bernardes,Bragança possuem filiais em Lisboa, entre outros muitos exemplos.

Outro dado interessante está ligado à localização geográfica dos escritórios de advocacia pelo Brasil. Assim como os maiores escritórios brasileiros se concentram no eixo Rio–São Paulo, as bancas que geram o maior número de ações também – dos dez escritórios com o maior número de ações, nove estão localizados nas duas capitais. A exceção é a firma Brasil, Salomão e Matthes, a nona maior em número de ações, com mais de 21 mil processos, sediada em Ribeirão Preto (SP). Os dez maiores escritórios em número de ações concentram 470 mil casos em andamento, com destaque para a sociedade Siqueira Castro, do Rio de Janeiro, que com 275 advogados é a única banca a patrocinar mais de 100 mil causas no país, segundo o estudo.


Transformando o espaço em marketing empresarial

Com o mercado da advocacia em ebulição no Brasil, os espaços físicos ocupados por eles também teriam de mudar – e já estão mudando. “O que determina a ambientação não é mais a exigência de formalidade, e sim um conjunto de fatores que começa pela personalidade dos profissionais que atuam na banca e pela imagem do escritório que se deseja passar ao mercado”, afirma a arquiteta Fernanda Dure, diretora da Dreher & Duré Arquitetos Associados. Os novos espaços e as reformas devem levar em consideração a personalidade dos advogados que compõem a empresa, a cultura da organização e o perfil dos clientes.

Entre as características que devem ser comuns a todos os escritórios de advocacia, destaque para os aspectos organização e confiabilidade. Ter uma estrutura adequada para atender seus clientes, deve partir da premissa de que os clientes devem sentir no ambiente uma sensação de amparo e de que realmente ali podem ser resolvidos os seus problemas. “Há várias formas de fazer isto acontecer por meio de um projeto arquitetônico bem elaborado, que deve ser definido mediante uma pesquisa sobre as necessidades e objetivos do escritório”, destaca Duré.

Se o objetivo é comunicar para os clientes uma mensagem de organização, confiabilidade e profissionalismo, o ambiente deve ser planejado intencionalmente para isso. Espaços bem delimitados, bom aproveitamento da luz natural, recepções confortáveis, móveis de qualidade, arquivos e guarda de documentos seguros e bem organizados e que poupem tempo de procura, distanciam os escritórios de advocacia das repartições públicas, onde pastas e papéis em pilhas fazem parte do “cenário” local. Os escritórios de advocacia caminham para uma realidade mais leve, equilibrada, adepta aos mais modernos sistemas tecnológicos de gestão da informação, rompendo com a tradicional sisudez que imperou por décadas nestas empresas.

Confiabilidade e credibilidade, por sua vez, não precisam necessariamente vir acompanhados de cores escuras, móveis pesados e aparência geral soturna. A jovialidade, modernidade e agilidade do ambiente podem causar os efeitos esperados não só nos clientes como também nos funcionários e colaboradores do escritório, que se identificarão mais com seu respectivo ambiente de trabalho, melhorando a produtividade e a empatia na relação advogado/cliente.

Outro item que precisa ser considerado na projeção do ambiente é o funcionamento do escritório, ou seja, de que forma os advogados trabalham, comunicam-se, organizam-se.“Cada grupo tem sua dinâmica própria e o espaço deve ser projetado para economizar o maior tempo possível, reduzir custos e colaborar para o bom desempenho dos profissionais. Uma tendência observada nos últimos anos é a de que muitos advogados estão preferindo atuar juntos, em uma sala única, para trocarem opiniões e conhecimentos a respeito dos processos. Somente as salas para atendimento ao cliente ficam separadas”, lembra a arquiteta, independente dos escritórios se localizarem em edifícios comerciais (a maioria) ou em imóveis térreos.

Se para cada empresa há uma solução diferente, investir no visual do escritório é uma prática sem volta e cada vez mais comum no ramo jurídico; vai além dos modismos e traz benefícios reais para todos os envolvidos. Com o surgimento de novas bancas a partir de fusões, aquisições e novas gerações de advogados associados, percebe-se que o marketing vem se tornando uma preocupação constante. E a ambientação é um item de fundamental importância no mix, pois comunica aos clientes, funcionários e fornecedores as características e os valores do escritório. Se estes valores estiverem corretos, fidelizar clientes passará necessariamente por uma boa aparência, além, é claro, de bons serviços prestados.

Créditos: Alexandre Negrini Turina

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