Sinônimo de revitalização urbana, o retrofit conquista espaço nos projetos arquitetônicos no Rio de Janeiro. E não é para menos. Quem já esteve na zona portuária de Nova York e de Buenos Aires, já viu como o Pier 17 e Puerto Madero se recriaram, transformando-se num polo capaz de atrair novos moradores, turistas, investimentos e, sobretudo, a autoestima de seus cidadãos. A tendência aportou na Cidade Maravilhosa no fim da década passada, mas agora ganha força com os planos do prefeito Eduardo Paes para redimir o entorno do Porto do Rio e o centro histórico como áreas de moradia e com o boom do mercado imobiliário – com créditos de sobra a oferecer. Sem falar que o seu custo é 40% menor por se aproveitar estruturas e fundações.
Hoje, o resultado dessa junção de fatores faz com que o retrofit eleve o preço do aluguel de salas comerciais – claro sinal de que a modernização dos edifícios antigos já se faz sentir. Se o metro quadrado na moderna Barra da Tijuca sai por até R$ 100, no Centro não custa menos de R$ 140. O crescimento de salas em prédios recuperados foi de 34% em 2008. Isso só nas categorias A e AA. Essa onda começou nos anos 90, com os retrofits do Edifício Generali, na Avenida Rio Branco; do Madison Avenue, na Avenida Graça Aranha; e do Visconde de Itaboraí, na Avenida Presidente Vargas (atual sede da Transpetro e da Agência Nacional do Petróleo), todos no Centro; e da antiga sede da Sears, transformada no Shopping Praia de Botafogo.
O exemplo mais recente de utilização desta técnica acaba de devolver aos cariocas um dos símbolos da nobreza imperial:o casarão neoclássico que pertenceu ao Barão de Mesquita, no Catete, na Zona Sul. Construído em 1875, foi recuperado pela rede de lojas de departamento Leader e inaugurada no último dia 19. Daqueles tempos, também foram mantidos como decoração um bebedouro de cavalos e uma escada em estilo caracol de madeira. O investimento, com a concepção built-to-suit, foi de R$ 25 milhões.
E vem mais por aí. A Klacon está para iniciar o retrofit de outro prédio no Centro. Na Zona Sul, a Capemisa, do ramo de seguros e previdência, está gastando R$ 9 milhões para retrofitar a sua sede, no edifício Capemi, na Praia de Botafogo. Mas o maior investimento deve ser o do retrofit do Edifício Sul América, um dos mais famosos do Centro. Construído na década de 30 no quarteirão das ruas da Quitanda, do Rosário, do Carmo e do Ouvidor, o prédio foi comprado pela norte- americana Tishman Speyer, a mesma que reformou o Rockfeller Center, em Nova York, e investirá R$ 120 milhões no seu retrofit, com direito a shopping center e um dos mais modernos complexos de escritórios classe A do país
O arrojo é outro elemento agregado ao retrofit, como no caso do Edifício Castelo, inaugurado em julho do ano passado e alugado à Petrobras. O projeto, da Hines, uniu os prédios Castello e Nilomex, ambos construídos em 1931 e em estilo art déco, no Centro. O novo edifício oferece hoje o que há de melhor em termos de comodidade moderna, como sistema central de ar- condicionado e elevadores de última geração, além de pavimentos de 1.750 metros quadrados de escritórios. Também é da Hines a retrofitagem do Flamengo Park Towers, alugado para sediar as empresas do megaempresário Eike Batista. Uma curiosidade: botafoguense, Eike ocupa hoje o prédio erguido onde, um dia, foi a primeira sede do Flamengo.
E a tendência é das melhores.Em 2006, a CHL lançou o condomínio Viva Lapa, um retrofit de antigo hotel da Rua Gomes Freire, na Lapa, conseguindo a proeza de vender todos os seus 178 apartamentos em uma hora ao preço médio de R$ 75 mil. No ano seguinte, a construtora repetiu a dose com o edifício corporativo Metropolitan, um retrofit do Palácio Rosa, no Largo do Machado (Zona Sul), onde um dia funcionou o Politeama,o maior teatro da cidade no século XIX.Todas as 162 salas comerciais foram vendidas, com direito a circuito interno de TV, elevadores panorâmicos e controle de biometria. O investimento é de R$ 20 milhões. Na Lagoa, a CHL fez da antiga sede da Artplan, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, o Lagoa Special View, com cada um de seus 11 apartamentos de 125m2 vendidos por R$ 1,2 milhão.
Também na Zona Sul, a Cyrela se prepara para entregar o Le Palais, um condomínio de luxo erguido onde funcionou a Clínica Doutor Eiras, na Rua Assunção, preservando os chalés Saint Clarice e Olinda. São 122 apartamentos vendidos por R$ 900 mil a R$ 1,8 milhão. Para quem não sabe, o Olinda serviu como casa de veraneio para a princesa Isabel.
Mas para tudo isso,a prefeitura também faz a sua parte. Está na mão dos vereadores um projeto de lei enviado no fim do ano pelo ex-prefeito Cesar Maia propondo o perdão das dívidas de IPTU para quem topar transformar essas construções em moradias para as classes média e baixa. A ideia é fechar parcerias com a Caixa Econômica Federal e oferecer linhas de crédito do Programa de Arrendamento Residencial para famílias que ganham até R$ 1.800, com quitação em até 15 anos. A Lapa, reduto boêmio carioca, é um dos alvos da retrofitagem. Basta andar pela Rua do Lavradio e pela Mem de Sá para ver como o antigo casario renasceu na forma de bares e casas de shows, como Rio Scenarium, Teatro Odisséia, Estrela da Lapa, Mofo, Mangue Seco e por aí vai.
Não bastasse a sua função social, o retrofit realça ainda mais o charme dos anos dourados, quando o Rio era o centro do poder no país. Outro projeto que ganha forma é o do velho casarão eclético do século XIX do Colégio Sacre-Coeur, em Laranjeiras (Zona Sul), que resultará no Parque Laranjeiras, um conjunto de lofts sob a batuta da Rossi. Exemplos do sucesso dessa técnica não faltam. Na Avenida Beira-Mar, no Centro, por exemplo, a antiga sede da Esso, de 1935, transformou-se nas atuais dependências do Ibmec.
Outro ingrediente que fomenta os retrofits no Rio é a falta de edifícios de alto padrão para escritórios classe AA e de terrenos disponíveis no Centro para construi-los. O melhor exemplo disso – e o mais dramático – é o da Torre Almirante, na esquina da Avenida Almirante Barroso com Rua México, no Centro. Em 1986, o prédio ardeu em chamas no Edifício Andorinhas, uma das maiores tragédias da cidade. Hoje, tornou-se um símbolo de renascimento pelo retrofit pelas mãos da Hines.